quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

"O executivo tem muito o que aprender com a vida militar", por Rafael Sigollo

Para McKinney, é preciso se inspirar nos altos níveis de desempenho e ser leal às marcas, às companhias e aos líderes


Consultor britânico, ex-oficial da elite da marinha britânica, traça paralelo entre as missões dos líderes empresariais e as dos generais


21/12/2009 - Valor Econômico - por Rafael Sigollo


Proteger e servir. O lema seguido durante 18 anos por Damian McKinney enquanto oficial dos Royal Marines - espécie de elite da marinha britânica -passou a ser usado também no mundo corporativo. No caso, isso se aplica a marcas, consumidores, funcionários e acionistas. Atualmente no comando da consultoria McKinney Rogers - fundada em 1999 e que opera com 11 escritórios na África, Ásia, Europa e Estados Unidos - ele tem entre seus clientes empresas como Wal-Mart e Diageo.

Ele afirma que os executivos têm muito a aprender com a vida militar. "Seus subordinados precisam saber exatamente o que vão realizar e o que se espera deles. Além disso, as missões não são abandonadas enquanto os objetivos não forem cumpridos, apesar de todos os contratempos e obstáculos que serão encontrados no caminho", diz. Em recente passagem pelo Brasil, onde veio inaugurar seu primeiro escritório na América Latina, Damian McKinney conversou com o Valor. Confira a seguir os principais trechos:


Valor: Como foi a sua experiência na vida militar?


Damian McKinney: Fiquei 18 anos nos Royal Marines. A maior parte desse tempo eu passei em operações "móveis" ao redor do mundo. Foi uma excelente preparação para enfrentar as missões de negócios, em que os recursos são sempre limitados, os concorrentes são espertos e o cenário muda rapidamente. Um atributo muito importante foi aprender a adotar sempre uma "mentalidade vencedora".


Valor: Como essa experiência o ajuda na vida profissional hoje?


McKinney: Minha experiência como oficial do Royal Marines me leva a usar as inspirações militares para obter a clareza exigida nos negócios e para transformar ideias em ação. Esses valores estão no cerne da McKinney Rogers e eu os venho aplicando nos últimos 30 anos. Eles significam se inspirar nos altos níveis de desempenho e ser leal às marcas, às companhias e aos líderes.


Valor: O que os executivos e presidentes de empresas podem aprender com os militares?


McKinney: Os conceitos básicos para se alcançar o sucesso e poder passar da estratégia para a execução, são basicamente iguais nos dois casos. O principal propósito é proteger e servir. Isso se aplica a marcas, consumidores, funcionários, acionistas e, no caso dos militares, países. É preciso também realizar missões que tenham uma visão clara e definida do sucesso. As missões não são abandonadas enquanto os objetivos não forem cumpridos, apesar de todos os contratempos e obstáculos. Seus subordinados precisam saber exatamente o que eles vão realizar e o que se espera deles. Também existe a questão da confiança. Grandes generais, assim como grandes líderes empresariais, pensam nas batalhas futuras e deixam as batalhas atuais para serem lutadas e vencidas por suas equipes. Os militares identificam as fraquezas do inimigo e atacam em seu ponto mais vulnerável. No mundo dos negócios isso quer dizer identificar o calcanhar de Aquiles de seus principais concorrentes e desenvolver seu serviço naquela área. Para se obter sucesso na vida militar e na empresarial é fundamental também ter uma equipe motivada e competente.


Valor: Os modelos modernos de gestão pregam uma abordagem participativa, com líderes mais influentes e menos autoritários. Essa percepção não vai contra a ideia do uso de técnicas militares no mundo corporativo?


McKinney: De jeito nenhum. Nossa filosofia é desenvolver líderes mais bem preparados para lidar com o inesperado e apresentar resultados excepcionais. Toda a organização saberá exatamente o que se espera que eles façam e, o mais importante, por que eles estarão fazendo daquele jeito. Não acreditamos na abordagem do tipo militar e controladora. Acreditamos, sim, na liderança inspiradora. A autoridade está na missão, na qual vamos todos nos concentrar, e não na autoridade.


Valor: Que tipo de serviço a McKinney Rogers vai oferecer?


McKinney: Nos concentramos em proporcionar uma mudança sustentável no desempenho empresarial por meio de estratégia, operações, recursos humanos e tecnologia. Usamos o conceito de liderança de missão. Essa é uma filosofia que proporciona clareza e alinhamento em toda a organização. Além disso, engloba o planejamento e análise da missão, além do controle sobre o progresso e os resultados.


Valor: Por que escolheu o Brasil?


McKinney: Iniciamos oficialmente os trabalhos no país no fim de outubro, embora já tivessemos atendido alguns clientes usando recursos de nosso escritório nos Estados Unidos. A McKinney Rogers nasceu com o objetivo de ser uma organização global e ainda não tinhamos representação na América Latina. O Brasil foi a escolha natural por sua posição de liderança dentro da região. O país enfrentou a crise sem problemas significativos e tem boas perspectivas para crescer no futuro. Além disso, há setores específicos que representam uma excelente oportunidade como a indústria do petróleo e toda a atividade relacionada com a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Ganância e Punição, por João Villaverde

Griffith apreciava as pinturas de Jean-François Millet (1814-1875), que mostravam a dura realidade da vida rural, como em "Des Glaneuses" (As colhedoras)


Há cem anos, David W. Griffith levava à tela a crítica das ações especulativas e seus efeitos sobre a vida dos produtores rurais e consumidores urbanos


23/12/2009 - Valor Econômico


Os preços do trigo estão em elevação. Um operador do mercado consegue, sozinho, auferir ganhos crescentes ao apostar na cotação em alta. Pequenos produtores do cereal não se beneficiam da subida. Famílias carentes não conseguem pagar pelo pão, que fica mais caro dia a dia, o que também não favorece o padeiro. O especulador, no entanto, está protegido - e cada vez mais rico. Este é o enredo de "A Corner in Wheat", considerado o primeiro filme de crítica à especulação, que completou 100 anos no dia 13. No cinema de 1909, a saída escolhida pelo diretor David Wark Griffith (1875-1948) foi uma espécie de reflexão moral: o especulador morre sob a montanha de trigo que estocava para manipular preços.


"O especulador tem função importante no sistema econômico, que é a de lubrificar as operações, oferecendo liquidez ao mercado. Isso faz parte do jogo econômico desde que os homens se organizaram em sociedade. Ao longo do tempo, com o desenvolvimento do capitalismo financeiro, a atividade do especulador acabou ganhando conotação negativa", explica Fabio Silveira, economista sócio da RC Consultores. Generalizou-se o preconceito de que o especulador age em prejuízo dos interesses da sociedade, por supostamente distorcer preços.


É essa figura manipuladora que Griffith buscou enquadrar numa perspectiva moral em seu filme. Segundo Ismail Xavier, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), "A Corner in Wheat" inova não apenas na temática, mas também na linguagem. "Foi a primeira vez em que Griffith utilizou a mesma cena na abertura e no final de um filme, que é a dos pequenos agricultores semeando seu terreno. A repetição indica que a situação deles continuava a mesma, independentemente da trama."


Xavier vê aí a influência da obra de Jean-François Millet, pintor francês de meados do século XIX que retratava a dura realidade da vida no campo e nobilitava o trabalho. Em sua autobiografia, Griffith menciona Millet como um artista que o impressionava. Em ambos, Millet e Griffith, há uma visão "sacralizada" do trabalhador do campo, diz Xavier. "O agricultor é honesto e sua família está unida, enquanto o especulador financeiro é o profanador que desrespeita aquele espaço sagrado do campo e é sempre mostrado sem família."


Pode-se dizer também que Griffith insere seu filme no clima de reprovação à atividade dos especuladores financeiros, exacerbado a partir do episódio conhecido como o "pânico de 1907", que derrubou a bolsa de Nova York.


Nascido em Kentucky, no Sudeste dos Estados Unidos, Griffith era politicamente conservador, mas, ao mesmo tempo, demonstrava solidariedade para com os pobres, o que transparece em sua obra. Também se inclui em sua extensa filmografia "O Nascimento de uma Nação", de 1915, reconhecido como o primeiro longa-metragem da história do cinema.


"A partir da década de 1910, tivemos um processo de retroalimentação entre cinema e crítica, muito importante para o desenvolvimento da arte", avalia Xavier. Assim, se os filmes não alcançavam, no início do século XX, a repercussão que teriam décadas mais tarde, a ideia de crítica social e política já estava lançada.


Xavier participou, entre 1975 e 1977, do grupo de estudos sobre a obra de Griffith montado pelo crítico Jay Leida na Universidade de Nova York. Lá, teve acesso aos cerca de 450 filmes realizados por Griffith entre 1908 e 1913. Eram histórias curtas, duravam em média dez minutos - ocupando um rolo inteiro de celulóide - e ficavam por pouco tempo nas salas de cinema, que também eram em menor número, concentradas nos centros urbanos. Com suas obras, explica Xavier, Griffith inovou, tecnicamente, utilizando-se da montagem paralela, que permitia contar duas ou mais histórias simultaneamente, graças a recursos de edição.


Griffith já estava à vontade com a montagem paralela em 1909, ao associar, em "A Corner in Wheat", os dramas dos marginalizados urbanos em fila para comprar pão e dos lavradores empobrecidos à boa-vida do especulador, que festeja o êxito da manipulação de preços num banquete em sua mansão.


Em seu tempo, Griffith colocava em discussão questões que atravessariam a história do capitalismo, até os dias de hoje, frequentemente envolvendo o funcionamento dos mercados de commodities. "Mesmo antes da crise econômica já vivíamos um estresse financeiro generalizado, uma vez que os preços das commodities agrícolas alcançavam patamares recordes", diz Walter Belik, economista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).


No início da atual década, à sucessão de quebra de safras em importantes centros produtores - trigo e milho na Argentina, arroz no Vietnã, sorgo na Índia, trigo na Austrália e Canadá - somou-se a política de incentivo à produção de etanol, nos Estados Unidos, a partir do milho, para determinar a alta dos preços das commodities. "O milho é um cereal básico, que disputa terra e recursos com a soja e outras culturas, e o sistema de preços opera um mecanismo de vasos comunicantes que torna impossível isolar os efeitos de um mercado sobre os demais", explica Antonio Márcio Buainain, professor da Universidade de Campinas.


Ao mesmo tempo, a demanda crescia rapidamente, ano a ano, - particularmente, na China e na Índia - num período de bonança para a economia internacional. O choque entre oferta e demanda foi "lenha na fogueira do mercado financeiro", avalia José Graziano da Silva, representante regional para América Latina e Caribe da FAO, agência de segurança alimentar da Organizações das Nações Unidas (ONU). Para ele, os mercados "descontrolados" funcionaram como o mecanismo de contágio mais explícito do que ocorria no campo. "Precisamos de uma vacina que amplie a regulação sobre fundos de investimentos, que nutriram a especulação nos últimos anos, seja com alimentos, seja com ativos financeiros", afirma.


Segundo Xavier, há um interesse cativo da sociedade por temas ligados ao mercado financeiro, especialmente diante dos avanços do capitalismo no último século. "Griffith funcionou como gatilho para essa convenção de retratar, e refletir, a especulação como pertencente ao mundo frenético dos mercados. Foi seguido por outros diretores, como Michelangelo Antonioni e Vsevolod Pudovkin."


A especulação está sempre em pauta. E sempre sob suspeita de servir mais a interesses ocultos, e menos às boas práticas de negócios, garantido-lhes uma indispensável base de liquidez. É assim que o especulador permanece à disposição de cineastas que se disponham a tomá-lo para protagonista de histórias tão atuais como as contadas por Griffith há cem anos.