quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

"O executivo tem muito o que aprender com a vida militar", por Rafael Sigollo

Para McKinney, é preciso se inspirar nos altos níveis de desempenho e ser leal às marcas, às companhias e aos líderes


Consultor britânico, ex-oficial da elite da marinha britânica, traça paralelo entre as missões dos líderes empresariais e as dos generais


21/12/2009 - Valor Econômico - por Rafael Sigollo


Proteger e servir. O lema seguido durante 18 anos por Damian McKinney enquanto oficial dos Royal Marines - espécie de elite da marinha britânica -passou a ser usado também no mundo corporativo. No caso, isso se aplica a marcas, consumidores, funcionários e acionistas. Atualmente no comando da consultoria McKinney Rogers - fundada em 1999 e que opera com 11 escritórios na África, Ásia, Europa e Estados Unidos - ele tem entre seus clientes empresas como Wal-Mart e Diageo.

Ele afirma que os executivos têm muito a aprender com a vida militar. "Seus subordinados precisam saber exatamente o que vão realizar e o que se espera deles. Além disso, as missões não são abandonadas enquanto os objetivos não forem cumpridos, apesar de todos os contratempos e obstáculos que serão encontrados no caminho", diz. Em recente passagem pelo Brasil, onde veio inaugurar seu primeiro escritório na América Latina, Damian McKinney conversou com o Valor. Confira a seguir os principais trechos:


Valor: Como foi a sua experiência na vida militar?


Damian McKinney: Fiquei 18 anos nos Royal Marines. A maior parte desse tempo eu passei em operações "móveis" ao redor do mundo. Foi uma excelente preparação para enfrentar as missões de negócios, em que os recursos são sempre limitados, os concorrentes são espertos e o cenário muda rapidamente. Um atributo muito importante foi aprender a adotar sempre uma "mentalidade vencedora".


Valor: Como essa experiência o ajuda na vida profissional hoje?


McKinney: Minha experiência como oficial do Royal Marines me leva a usar as inspirações militares para obter a clareza exigida nos negócios e para transformar ideias em ação. Esses valores estão no cerne da McKinney Rogers e eu os venho aplicando nos últimos 30 anos. Eles significam se inspirar nos altos níveis de desempenho e ser leal às marcas, às companhias e aos líderes.


Valor: O que os executivos e presidentes de empresas podem aprender com os militares?


McKinney: Os conceitos básicos para se alcançar o sucesso e poder passar da estratégia para a execução, são basicamente iguais nos dois casos. O principal propósito é proteger e servir. Isso se aplica a marcas, consumidores, funcionários, acionistas e, no caso dos militares, países. É preciso também realizar missões que tenham uma visão clara e definida do sucesso. As missões não são abandonadas enquanto os objetivos não forem cumpridos, apesar de todos os contratempos e obstáculos. Seus subordinados precisam saber exatamente o que eles vão realizar e o que se espera deles. Também existe a questão da confiança. Grandes generais, assim como grandes líderes empresariais, pensam nas batalhas futuras e deixam as batalhas atuais para serem lutadas e vencidas por suas equipes. Os militares identificam as fraquezas do inimigo e atacam em seu ponto mais vulnerável. No mundo dos negócios isso quer dizer identificar o calcanhar de Aquiles de seus principais concorrentes e desenvolver seu serviço naquela área. Para se obter sucesso na vida militar e na empresarial é fundamental também ter uma equipe motivada e competente.


Valor: Os modelos modernos de gestão pregam uma abordagem participativa, com líderes mais influentes e menos autoritários. Essa percepção não vai contra a ideia do uso de técnicas militares no mundo corporativo?


McKinney: De jeito nenhum. Nossa filosofia é desenvolver líderes mais bem preparados para lidar com o inesperado e apresentar resultados excepcionais. Toda a organização saberá exatamente o que se espera que eles façam e, o mais importante, por que eles estarão fazendo daquele jeito. Não acreditamos na abordagem do tipo militar e controladora. Acreditamos, sim, na liderança inspiradora. A autoridade está na missão, na qual vamos todos nos concentrar, e não na autoridade.


Valor: Que tipo de serviço a McKinney Rogers vai oferecer?


McKinney: Nos concentramos em proporcionar uma mudança sustentável no desempenho empresarial por meio de estratégia, operações, recursos humanos e tecnologia. Usamos o conceito de liderança de missão. Essa é uma filosofia que proporciona clareza e alinhamento em toda a organização. Além disso, engloba o planejamento e análise da missão, além do controle sobre o progresso e os resultados.


Valor: Por que escolheu o Brasil?


McKinney: Iniciamos oficialmente os trabalhos no país no fim de outubro, embora já tivessemos atendido alguns clientes usando recursos de nosso escritório nos Estados Unidos. A McKinney Rogers nasceu com o objetivo de ser uma organização global e ainda não tinhamos representação na América Latina. O Brasil foi a escolha natural por sua posição de liderança dentro da região. O país enfrentou a crise sem problemas significativos e tem boas perspectivas para crescer no futuro. Além disso, há setores específicos que representam uma excelente oportunidade como a indústria do petróleo e toda a atividade relacionada com a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Ganância e Punição, por João Villaverde

Griffith apreciava as pinturas de Jean-François Millet (1814-1875), que mostravam a dura realidade da vida rural, como em "Des Glaneuses" (As colhedoras)


Há cem anos, David W. Griffith levava à tela a crítica das ações especulativas e seus efeitos sobre a vida dos produtores rurais e consumidores urbanos


23/12/2009 - Valor Econômico


Os preços do trigo estão em elevação. Um operador do mercado consegue, sozinho, auferir ganhos crescentes ao apostar na cotação em alta. Pequenos produtores do cereal não se beneficiam da subida. Famílias carentes não conseguem pagar pelo pão, que fica mais caro dia a dia, o que também não favorece o padeiro. O especulador, no entanto, está protegido - e cada vez mais rico. Este é o enredo de "A Corner in Wheat", considerado o primeiro filme de crítica à especulação, que completou 100 anos no dia 13. No cinema de 1909, a saída escolhida pelo diretor David Wark Griffith (1875-1948) foi uma espécie de reflexão moral: o especulador morre sob a montanha de trigo que estocava para manipular preços.


"O especulador tem função importante no sistema econômico, que é a de lubrificar as operações, oferecendo liquidez ao mercado. Isso faz parte do jogo econômico desde que os homens se organizaram em sociedade. Ao longo do tempo, com o desenvolvimento do capitalismo financeiro, a atividade do especulador acabou ganhando conotação negativa", explica Fabio Silveira, economista sócio da RC Consultores. Generalizou-se o preconceito de que o especulador age em prejuízo dos interesses da sociedade, por supostamente distorcer preços.


É essa figura manipuladora que Griffith buscou enquadrar numa perspectiva moral em seu filme. Segundo Ismail Xavier, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), "A Corner in Wheat" inova não apenas na temática, mas também na linguagem. "Foi a primeira vez em que Griffith utilizou a mesma cena na abertura e no final de um filme, que é a dos pequenos agricultores semeando seu terreno. A repetição indica que a situação deles continuava a mesma, independentemente da trama."


Xavier vê aí a influência da obra de Jean-François Millet, pintor francês de meados do século XIX que retratava a dura realidade da vida no campo e nobilitava o trabalho. Em sua autobiografia, Griffith menciona Millet como um artista que o impressionava. Em ambos, Millet e Griffith, há uma visão "sacralizada" do trabalhador do campo, diz Xavier. "O agricultor é honesto e sua família está unida, enquanto o especulador financeiro é o profanador que desrespeita aquele espaço sagrado do campo e é sempre mostrado sem família."


Pode-se dizer também que Griffith insere seu filme no clima de reprovação à atividade dos especuladores financeiros, exacerbado a partir do episódio conhecido como o "pânico de 1907", que derrubou a bolsa de Nova York.


Nascido em Kentucky, no Sudeste dos Estados Unidos, Griffith era politicamente conservador, mas, ao mesmo tempo, demonstrava solidariedade para com os pobres, o que transparece em sua obra. Também se inclui em sua extensa filmografia "O Nascimento de uma Nação", de 1915, reconhecido como o primeiro longa-metragem da história do cinema.


"A partir da década de 1910, tivemos um processo de retroalimentação entre cinema e crítica, muito importante para o desenvolvimento da arte", avalia Xavier. Assim, se os filmes não alcançavam, no início do século XX, a repercussão que teriam décadas mais tarde, a ideia de crítica social e política já estava lançada.


Xavier participou, entre 1975 e 1977, do grupo de estudos sobre a obra de Griffith montado pelo crítico Jay Leida na Universidade de Nova York. Lá, teve acesso aos cerca de 450 filmes realizados por Griffith entre 1908 e 1913. Eram histórias curtas, duravam em média dez minutos - ocupando um rolo inteiro de celulóide - e ficavam por pouco tempo nas salas de cinema, que também eram em menor número, concentradas nos centros urbanos. Com suas obras, explica Xavier, Griffith inovou, tecnicamente, utilizando-se da montagem paralela, que permitia contar duas ou mais histórias simultaneamente, graças a recursos de edição.


Griffith já estava à vontade com a montagem paralela em 1909, ao associar, em "A Corner in Wheat", os dramas dos marginalizados urbanos em fila para comprar pão e dos lavradores empobrecidos à boa-vida do especulador, que festeja o êxito da manipulação de preços num banquete em sua mansão.


Em seu tempo, Griffith colocava em discussão questões que atravessariam a história do capitalismo, até os dias de hoje, frequentemente envolvendo o funcionamento dos mercados de commodities. "Mesmo antes da crise econômica já vivíamos um estresse financeiro generalizado, uma vez que os preços das commodities agrícolas alcançavam patamares recordes", diz Walter Belik, economista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).


No início da atual década, à sucessão de quebra de safras em importantes centros produtores - trigo e milho na Argentina, arroz no Vietnã, sorgo na Índia, trigo na Austrália e Canadá - somou-se a política de incentivo à produção de etanol, nos Estados Unidos, a partir do milho, para determinar a alta dos preços das commodities. "O milho é um cereal básico, que disputa terra e recursos com a soja e outras culturas, e o sistema de preços opera um mecanismo de vasos comunicantes que torna impossível isolar os efeitos de um mercado sobre os demais", explica Antonio Márcio Buainain, professor da Universidade de Campinas.


Ao mesmo tempo, a demanda crescia rapidamente, ano a ano, - particularmente, na China e na Índia - num período de bonança para a economia internacional. O choque entre oferta e demanda foi "lenha na fogueira do mercado financeiro", avalia José Graziano da Silva, representante regional para América Latina e Caribe da FAO, agência de segurança alimentar da Organizações das Nações Unidas (ONU). Para ele, os mercados "descontrolados" funcionaram como o mecanismo de contágio mais explícito do que ocorria no campo. "Precisamos de uma vacina que amplie a regulação sobre fundos de investimentos, que nutriram a especulação nos últimos anos, seja com alimentos, seja com ativos financeiros", afirma.


Segundo Xavier, há um interesse cativo da sociedade por temas ligados ao mercado financeiro, especialmente diante dos avanços do capitalismo no último século. "Griffith funcionou como gatilho para essa convenção de retratar, e refletir, a especulação como pertencente ao mundo frenético dos mercados. Foi seguido por outros diretores, como Michelangelo Antonioni e Vsevolod Pudovkin."


A especulação está sempre em pauta. E sempre sob suspeita de servir mais a interesses ocultos, e menos às boas práticas de negócios, garantido-lhes uma indispensável base de liquidez. É assim que o especulador permanece à disposição de cineastas que se disponham a tomá-lo para protagonista de histórias tão atuais como as contadas por Griffith há cem anos.

terça-feira, 21 de julho de 2009

All that



Série de lâminas em papel de Henri Matisse (1943), da qual fazem parte um logotipo e a figura em azul e amarelo: possivelmente o mais conhecido trabalho de grandes pintores do século XX sobre o jazz
Mostra: A contribuição jazzística da França é tema de magnífica exposição exibida em Paris e que será inaugurada em Barcelona
Por Zuza Homem de Mello, para o Valor, de Londres e Paris
17/07/2009

Nenhuma consoante ou vogal é comum a duas palavras que dão nome às cidades de maior apelo cultural no planeta, London e Paris. Ainda que tão próximas, London Town e Cité de Paris são radicalmente diferentes. Abaixo da terra, circula-se no underground londrino ou no métro parisiense; por cima, dirige-se um automóvel pela esquerda ou, diversamente, pela direita; na ilha, como manda a tradição, paga-se em libras, no continente, em euros; entra-se livremente na National Gallery, enquanto no Louvre faz-se fila na bilheteria sob a pirâmide de vidro; a forma como se alçam para o alto as duas torres, "landmarks" das cidades, nada tem a ver uma com a outra.

Entre ambas, além de terras cultivadas, há os 50 e poucos quilômetros das águas revoltas do canal da Mancha, palco de tragédias e episódios históricos.


Em 1944, ele tragou, em mistério até hoje não detalhadamente elucidado, o pequeno avião que levava a bordo o idolatrado líder das "big bands" americanas, o trombonista Glenn Miller. Seis meses antes desse fatídico 16 de dezembro, as águas e a neblina do canal haviam sido ultrapassadas pelas barcaças das forças aliadas na glorificada invasão que, detonada a todo risco a despeito do clima adverso, mudou o curso da Segunda Grande Guerra.


Cinquenta anos depois, com a construção do Eurotúnel, o canal da Mancha deixou de ser o empecilho que já fora para os que diariamente viajam de Londres a Paris e vice-versa.Foto DestaqueBillie Holiday, em retrato de Carl Van Vechten (194O); "Jazz" (1986), quadro do atormentado pintor Jean-Michel Basquiat que cita títulos de temas de Charlie Parker como "Now's the Time" e "Marmaduke"; um dos pais do cubismo, Fernand Léger demonstrou seu encantamento pelo gênero no desenho em papel "Jazz" (1930)


À minha frente, num vagão do trem Eurostar que parte lotado a cada hora de Saint Pancras Station ou, em sentido contrário, da Gare Du Nord, George Durgin Jr, um americano solícito de 86 anos que reside em Ocala, na Flórida, ex-piloto das fortalezas voadoras B -17, retorna à França, desta vez para participar das festividades dos 65 anos da invasão da Normandia. Ainda sob a emoção de sua longínqua juventude na Air Force, dá detalhes sobre suas missões de bombardeio, quando levantava voo do aeródromo de Debeach, uma das bases das operações militares, situada a uma hora e meia de Londres, onde nas horas de folga ia orar ou se divertir dançando com as inglesas.


Ao longo da conversa, regada a champanhe e vinho francês elegantemente servidos no almoço durante a viagem de duas horas e meia, revela-me também que tocava violino em orquestras, executando, à primeira vista, partes de clarineta gravadas por Benny Goodman. As lembranças musicais de um dos poucos remanescentes do dia "D" se prendem a uma época efervescente da história do jazz, a era do suingue, cujos discos servem como o mais adequado fundo musical para fascinantes relatos da farta literatura disponível sobre o tema "Second World War", título de uma das seções da livraria Foyle's de Londres.


Foi a época em que o guitarrista cigano de origem belga Django Reinhardt era considerado o maior ídolo do jazz francês. Sua fama era de tal ordem, que, em pleno 1943, o "Kommandatur" convidou-o para uma inconcebível turnê de jazz pela Alemanha nazista, jamais realizada, pois Django fugiu, desaparecendo no interior da França. Posteriormente, em setembro de 1944, consagrava-se no Olympia num espetáculo fechado para os militares aliados que haviam devolvido a cidade luz a seu povo.


Até americanos que nada entendiam de jazz ficaram boquiabertos com o suingue e os improvisos daquele displicente personagem de bigodinho fino que, mesmo sem usar dois dedos da mão esquerda, paralisados num acidente aos 18 anos, tocava como um demônio. Desconhecido para eles, Django era, no entanto, a figura de maior projeção no Quinteto do Hot Club de France com o qual estabelecera uma sonoridade notavelmente singular no jazz sem - imaginem se isso seria possível - um único instrumento de sopro. No Jazz! O timbre e o suingue desse combo de instrumentos de corda - três guitarras, violino e contrabaixo - acabou por determinar um estilo poderoso, que se converteu no único formato reconhecido no jazz que, é fato, não tem raízes em solo americano. Representa, isso sim, uma das duas maiores contribuições dos franceses ao jazz, sendo conhecido como Manouche style. É o estilo que caracteriza o jazz de Paris podendo até hoje, com sorte, ser ouvido nas galerias da Place des Vosges.ReproduçõesFoto DestaqueO vínculo à religiosidade é caracterizado, acima, na tela de Archibald J. Motley Jr. (1929); "affiche" para divulgar Louis Armstrong como artista da gravadora Decca, por volta de 1940; Josephine Baker, em litografia do húngaro Michel Gyarmathy (1927); capa da revista "Life"(1926) com figuras alusivas à era do jazz desenhadas por Fred Cooper


Não é pois de estranhar que o jazz parisiense tenha sido objeto de uma programação especial realizada no mais novo espaço dedicado à música e artes plásticas na cidade de Londres, o King's Place. Localizado às margens de um canal, a 300 metros de uma das mais movimentadas confluências do tube londrino, King's Cross, combina um moderno edifício de escritórios de aluguel com um gostoso bar e um simpático restaurante cercados de conforto e, o principal, um espaço cultural composto de uma galeria de arte e três salas de concerto, cuja programação finamente cuidada é subvencionada, em parte, pela renda das empresas locatárias.


A programação cultural do King's Place tem personalidade própria, bastando, para se ter ideia, recorrer ao título da serie "Beethoven Unwrapped" (Beethoven desembrulhado), que inclui atividades paralelas - concertos, palestras, discussões - em torno da obra do compositor. Outra marca da originalidade da programação é a duração de alguns concertos em convenientes horários, 45 minutos, tempo necessário e suficiente para a completa execução de uma obra de câmara.


Um recente destaque na programação musical do King's Place foi a mencionada série "Paris Jazz", que trouxe evidentemente um dos astros do "Manouche", o gorducho Biréli Lagrène, bem como o eloquente pianista Martial Solal, colega de americanos do bebop que viviam em Paris nos anos 50. Uma palestra sobre o, na época escandaloso, romance entre Juliette Greco e Miles Davis e suas implicações no existencialismo compôs com os demais concertos um ciclo que ratifica a segunda grande contribuição dos franceses ao jazz: o pioneirismo e a competência dos estudiosos sobre o tema. Afinal, esse vínculo vem de longe: a cidade onde nasceu o jazz chamava-se até 1803 La Nouvelle-Orléans.


Não foi sem uma certa sensação de saudade de um passado não vivido, o do jazz na Europa durante a guerra, que, ao me despedir do ex-piloto George, sugeri que visitasse o museu onde aquelas duas atuações dos franceses no jazz certamente seriam mais que bem representadas.


"Le Siècle du Jazz Art, Cinéma, Musique et Photographie de Picasso à Basquiat" - O século do jazz arte, cinema, música e fotografia de Picasso a Basquiat - é o título de uma brilhante mostra que esteve na Itália, de novembro a fevereiro, em Paris, no Musée du Quai Branly, de março a junho, e que será inaugurada no dia 21, no Centre de Cultura Contemporània de Barcelona.


O Branly é relativamente recente, de aspecto contemporâneo e dedicado a regiões que não façam parte da Europa, isto é, um museu sobre a Ásia, a América, a África e a Oceania. Seu interior, um tanto sinistro, abriga um acervo sensacional, além de exposições temporárias.


A mostra "Le Siècle du Jazz" expõe a relação das formas, gráfica ou sonora, próprias do gênero - expressas em capas de partituras, em livros, documentos, revistas especializadas, em capas de discos vinil, em filmes, shorts, clipes, fotografias, objetos e, naturalmente, na música propriamente dita, que é ouvida aqui e acolá - com a pintura e a escultura desse século por meio das obras de um elenco cintilante que inclui Picasso, Le Corbusier, Otto Dix, Man Ray, Leger, Mondrian, Matisse, Dubuffet, Pollock, Buffet, Tapies e Basquiat. Ademais, há dezenas de outros nomes das artes plásticas que transmitiram em sua obra a sedução que tiveram pelo jazz de seu século.


No terreno da densidade com que os franceses se entregaram aos estudos de jazz são expostos livros pioneiros e a primeira discografia de jazz de que se tem notícia, publicada em 1936 pelo privilegiado autor francês Charles Delaunay, um dos mais ativos dirigentes do Hot Club de France, que ele ajudou fundar. Associado a outro estudioso, Hugues Panassié, Delaunay editou a revista "Le Jazz Hot" em 1935 (apenas um ano após o primeiro número da americana "Down Beat"), promoveu concertos e gravações do legendário quinteto do clube, o tal em que brilhavam Django e o outro solista de que tanto se orgulham os franceses, o longevo violinista Stéphan Grappelli - tocou magnificamente até os 89 anos -, disputado pelos italianos pela acentuação no "ppe", em virtude de sua ascendência e com total razão pelos franceses, na sílaba final "lli".


Pannasié, futuro desafeto de Delaunay, contrastava seu entusiasmo e dedicação com uma visão obtusa sobre a evolução do jazz. Celebrado pelas promoções de concertos e por seu livro "Le Jazz Hot" (Paris, 1934), é ridicularizado pela ingenuidade que mostrou ao escrever: "Quando Charlie Parker desenvolveu o que era chamado de bop, deixou de ser um verdadeiro músico de jazz".


Se Pannasié, que foi exaltado durante anos até por Armstrong, de quem se fez amigo, teve essa visão desfocada, outros estudiosos franceses de jazz, nomeados na exposição do "Siècle du Jazz", produziram obras de referência, consistentes e penetrantes, com análises que permanecem respeitadas: Robert Goffin, de origem belga, que publicou em 1922 o primeiro de seus vários livros "Jazz Band", e André Coueroy, que escreveu com André Schaeffner, "Le Jazz", em 1926, ambas edições francesas. Posteriormente, a França teve outros excelentes autores sobre jazz, todos mencionados na "Siècle du Jazz", entre eles Andre Hodeir, autor do lúcido "Hommes et problèmes du Jazz" (1954), e Andre Francis, do elucidativo "Jazz", editado no Brasil pela Martins Fontes em 1987 com um capítulo extra sobre o jazz no Brasil, de minha autoria.


Outras atrações fascinantes na exposição são um exemplar do "Blue Book", a brochura editada entre 1915 e 1917 sobre La Nouvelle-Orleans, a capa da partitura original de St. Louis Blues de W. C. Handy (1914), exemplares da revista "Jazz", de capa futurista editada a partir do fim da década de 1920, e de outras publicações no período em que o mundo foi tomado de assalto pelas "jazz bands", a época que Scott Fitzgerald denominou de "The Jazz Era".


Reafirma-se em "Le siècle du Jazz" a arte gráfica que se criou num espaço novo, o das capas dos "long playings" dos anos 50 e 60, que além de instituir um conceito original de fundo comercial e cultural para a embalagem de um disco, tornou-se viável em virtude da vitalidade das gravadoras de jazz. O grafismo das capas expõe a diversidade de estilos abertos à experimentação, sem tradição e sem restrições, que se abriu a designers e fotógrafos no exíguo espaço de um quadrado de 30 centímetros de lado. Reflete o espírito de uma época e de uma música que ainda iria compartilhar com a música clássica as salas de concerto. Entre os grandes nomes contemplados na mostra, estão designers como David Stone Martin (vinculado a quase tudo produzido por Norman Granz nas etiquetas, Norgran, Clef e Verve) e Reid Miles (que definiu o estilo Blue Note em mais de 500 capas), fotógrafos como Bill Claxton, Herman Leonard, Francis Wolff e Lee Friedlander.


Essa arte gráfica esteve ao alcance de quem adquirisse um LP quando ainda existiam lojas de discos ou a quem encomendasse pelo correio um volume das coleções disponíveis nos catálogos dos clubes especializados como a Jazztone Society, cujas capas remetiam diretamente às linhas geométricas e vivamente coloridas das telas de Mondrian, o autor da célebre "Broadway Boogie Woogie".
Ressalta ao longo da exposição "Le Siècle du Jazz" a inquestionável e dupla contribuição da França para o jazz que, ao que se saiba, não recebeu ainda a merecida atenção nos eventos promovidos no ano da França no Brasil. Restará a quem se dispuser, ver a mostra em Barcelona. Até 18 de outubro. Um honroso "vaut le voyage" no guia Michelin.

quinta-feira, 26 de março de 2009

O ato criador, citado por Helena Rizzo

Helena Rizzo, chef do Maní

Graças a uma das pessoas que mais admiro no mundo da gastronomia, a ex-modelo e chef gaúcha Helena Rizzo, do restaurante paulistano Maní, pude conhecer o texto brilhante do célebre artista plástico francês Marcel Duchamp. A Helena leu para a platéia, durante o Mesa Tendências 2008, O Ato Criador, de uma maneira leve e simples, onde o tempo todo falava baixo e sorria.

A chef diz que, atualmente, interessa passear livremente por idéias e filosofias. “Não acredito em verdades prontas. O importante é estar na vida acompanhando as modificações do mundo, da natureza”, filosofou.

O texto abaixo enfatiza “a necessidade de o artista ser impreciso em relação aos caminhos escolhidos, em prol da liberdade e fluência da criação”. Segundo Helena Rizzo, tal pensamento foi determinante ao conceber seu estilo de cozinha. “Gosto de partir de uma técnica, um princípio, sem saber onde vai terminar”.

Ótima leitura! Aproveito para lembrar que este texto também está presente no meu blog de gastronomia, www.futibar.blogspot.com
O ato criador (Marcel Duchamp)
Consideremos dois importantes fatores, os dois pólos da criação artística: de um lado o artista, do outro o público que mais tarde se transforma na posteridade.

Aparentemente o artista funciona como um ser mediúnico que, de um labirinto situado além do tempo e do espaço, procura caminhar até uma clareira.

Ao darmos ao artista os atributos de um médium, temos de negar-lhe um estado de consciência no plano estético sobre o que esta fazendo, ou por que esta fazendo. Todas as decisões relativas à execução artística do seu trabalho permanecem no domínio da pura intuição e não podem ser objetivadas numa auto-análise, falada, escrita, ou mesmo pensada.

T. S. Elliot escreve em seu ensaio sobre Traditions and Individual Talents: “Quanto mais perfeito o artista, mais completamente separados estão nele o homem que sofre e a mente que cria; e mais perfeitamente a mente assimilará e expressará as paixões que são seu material.” Milhões de artistas criam; somente alguns poucos milhares são discutidos ou aceitos pelo público e muito menos ainda são os consagrados pela posteridade.

Em última análise, o artista pode proclamar de todos os telhados que é um gênio; terá de esperar pelo veredicto do público para que a sua declaração assuma um valor social e para que, finalmente, a posteridade o inclua entre as figuras primordiais da História da Arte.

Sei que esta afirmação não contará com a aprovação de muitos artistas que recusam este papel mediúnico e que insistem na validade de sua conscientização em relação a arte criadora – contudo, a História da Arte tem persistentemente decidido sobre as virtudes de uma obra de arte, através de considerações completamente divorciadas das explicações racionalizadas do artista.

Se o artista como ser humano, repleto das melhores intenções para consigo mesmo e para com o mundo inteiro, não desempenha papel algum no julgamento que conduz o publico a reagir criticamente à obra de arte? Em outras palavras, como se processa esta reação?

Este fenômeno é comparável a uma transferência do artista para com o público, sob a forma de uma osmose estética, processada através da matéria inerte, tais como a tinta, o piano, o mármore.

Antes de prosseguir, gostaria de esclarecer o que entendo pela palavra “arte” – sem, certamente, tentar uma definição.

O que quero dizer é que a arte pode ser ruim, boa ou indiferente, mas, seja lá qual for o adjetivo empregado, devemos chamá-la de arte, e arte ruim, ainda assim, é arte, da mesma forma que emoção ruim, ainda é emoção.

Por conseguinte, quando eu me referi ao “coeficiente artístico”, deverá ficar entendido que não me refiro somente a grande arte, mas estou tentando descrever o mecanismo subjetivo que produz a arte em estado bruto – à l’état brut – ruim, boa ou indiferente.

No ato criador, o artista passa da intenção à realização, através de uma cadeia de reações totalmente subjetivas. Sua luta pela realização é uma serie de esforços, sofrimentos, satisfações, recusas, decisões que também não podem e não devem ser totalmente conscientes, pelo menos no plano estético.

O resultado desse conflito é uma diferença entre a intenção e a sua realização, uma diferença de que o artista não tem consciência.

Por conseguinte na cadeia de reações que acompanham o ato criador falta um elo. Esta falha que representa a inabilidade do artista em expressar integralmente a sua intenção; esta diferença entre o que quis realizar e o que na verdade realizou é o “coeficiente artístico” pessoal contido na sua obra de arte.

Em outras palavras, o “coeficiente artístico” pessoal é como uma relação aritmética entre o que permanece inexpresso embora intencionado, e o que é expresso não intencionalmente.

A fim de evitar um mal entendido, devemos lembrar que este “coeficiente artístico” é uma expressão pessoal da arte à l’état brut, ainda num estado bruto que precisa ser “refinado” pelo público como o açúcar puro extraído do melado; o índice deste coeficiente não tem influencia alguma sobre tal veredicto. O ato criador toma outro aspecto quando o espectador experimenta o fenômeno da transmutação; pela transformação da matéria inerte numa obra de arte, um transubstanciado real processou-se, e o papel do público é o de determinar qual o peso da obra de arte na balança estética.

Resumindo, o ato criador não é executado pelo artista sozinho; o público estabelece o contato entre a obra de arte e o mundo exterior, decifrando e interpretando suas qualidades intrínsecas e, desta forma, acrescenta sua contribuição ao ato criador. Isto torna-se ainda mais obvio quando a posteridade dá o seu veredicto final e, as vezes, reabilita artistas esquecidos.

Bibliografia: DUCHAMP, Marcel. O Ato Criador In: BATTCOCK, Gregory. A Nova Arte. São Paulo. Perspectiva: 2004

quarta-feira, 25 de março de 2009

Blogs - O que aconteceu com a velha-guarda?


Segunda-feira, 7 abril de 2008

Muitos autores de blogs do começo do século perderam parte de sua audiência após escreverem menos em seus sites

Gustavo Miller

Nemo Nox não foi o primeiro brasileiro a entrar no mundo dos blogs. Apenas um mês antes de sua estréia, a gaúcha Viviane Vaz de Menezes foi a primeira blogueira tupiniquim, com o Delights to Cheer. Mas, como o título denuncia, ela escrevia em inglês. Nox, assim, foi pioneiro ao colocar na blogosfera as suas primeiras palavras em português. Dez anos após a estréia de Diário da Megalópole, o Link foi atrás de alguns blogueiros das antigas e pediu para que eles contassem como era ter um blog quando ele engatinhava no Brasil - e o que mudou agora, quando o meio já virou “hominho” e até trabalha.

“Os blogs não mudaram muito, o que está diferente é o perfil dos blogueiros. Antes era diarinho? Era, mas o pessoal tinha conteúdo, não se levava a sério, dava prazer de ler. Hoje tem muito ‘zé graça’ que acha que a internet é uma mina de ouro e que vai ganhar dinheiro com blog”, cutuca Mariana Seversen, de 25 anos, a Boo do www.bluezita.com - no ar desde 2001.

“No começo havia um glamour em blogar. Depois que a Globo comprou o Blogger.com.br (em 2003) a coisa proliferou e o pessoal que antes comentava decidiu escrever. Surgiu muito site bom, mas mil vezes mais páginas ruins apareceram”, alfineta Gabriel Von Doscht, o Moskito, que assina o www.dequejeito.com.br, também de 2001.

É raro ver exemplos de autores “da velha geração”, como Alexandre Inagaki, que há sete anos mantém o seu ritmo de cerca de três posts por semana. Muitos escrevem esporadicamente para não perder o hábito, mesmo se o blog não é mais tão visitado como antes.

“Ele continua sendo o meu laboratório, meu caderno de rascunho, como aqueles que andam no bolso de quem escreve”, descreve a webdesigner Rita Apoena, de 31 anos, que anota poemas no ritaapoena.zip.net.

Já outros acabam se adaptando aos tempos para continuarem tendo o prazer por escrever aquilo o que lhe dá na telha. Para muitos, microblogs como o Twitter resgatam um pouco o ideal de diário pessoal descompromissado. O próprio Bluezita só tem agora pequenas pílulas do dia-a-dia de Boo.

“Não tenho mais a eloqüência de meus 18 anos. Hoje ele é mais para escrever besteira quando dá vontade”, brinca. “Agora ele está intimista, dá uma média de 20 a 50 acessos diários. No começo era uns 500... Acho até melhor, porque agora sei quem o lê mesmo.”

Isso é engraçado. Muito blog famoso se orgulha de ter 10 mil visitas diárias, mas não faz idéia de quem é esse pessoal. “Não é o número de cliques que torna um blog importante, é a sua influência. É fácil dizer que se tem 10 milhões de leitores, quando 60% deles caiu de pára-quedas do Google porque digitou nele ‘fotos na Playboy’, caiu na página e logo saiu”, provoca Wagner Martins, o Mr. Manson.

Então como medir a real audiência do blogueiro? Para Manson, a solução é ver o número de assinantes do feed do site, uma ferramenta de RSS que avisa o assinante sempre que o blog é atualizado, sem precisar visitá-lo. Já para Edney Souza, do Interney.net, uma boa medição é o tempo médio que o internauta passa com a página aberta, o que possivelmente indica se o público está realmente interessado no conteúdo exibido.

Já para os blogueiros da velha escola, a melhor opção também é o tempo - mas o do blog, pois aí realmente se sabe quem é leitor interessado mesmo, que sempre comenta o post ou manda e-mails ao blogueiro - diferente daquele que visitava e trocava links apenas para pegar carona no sucesso do blog quando ele estava no auge.

“Tenho uma média de 200 visitas diárias, o que está bom, já que não posto sempre. Quem está comigo são os leitores fiéis, que se manifestam com freqüência na minha caixa de comentários ou colocam links para mim”, diz Ruy Goiaba.

“Tenho leitores novos todo dia, mas mantenho a torcida que está comigo há sete anos e que não me deixa parar. Os que chegam lêem todos os meus arquivos e conversam comigo como se fossem velhos conhecidos”, elogia Sérgio Faria, do Catarro Verde.
Hoje eles não blogam mais

Gustavo Miller

Por ainda ter a pecha de diário de adolescentes em seu começo, muitos blogueiros jovens, que começaram a escrever a no começo deste século, hoje não mantém mais as suas páginas no ar. O motivo? Eles cresceram (os donos, não os blogs).

Foi assim com o gerente de marketing Roberto Taunil, de 32 anos, que ganhou fama com o nome de Bob Bactéria. Na página, Bob contava, com ótimo bom humor, as enrascadas em que ele e os amigos viviam se metendo, como festas, viagens e, invariavelmente, casos amorosos.

“Casei, sabe como é...”, ri. “Naquela época era diário pessoal hoje é fonte de informação. Ele está muito profissional e impessoal”, comenta ele, que manteve o site de 2002 a 2006.

Também nessa época, dois primos, no fervor de suas adolescências, ganharam fama entre os blogueiros por serem criativos e bons escribas: os Capanema. O jornalista Rafael, hoje com 22 anos, escrevia no Sutil Como um Paquiderme, além do genial Diário do Pão com Manteiga na Chapa (ele descrevia, todo dia, o pão comido). Thiago, agora com 21, no Não Vai se Perder por Aí.

“Faz três anos que não vejo os arquivos do Paquiderme. Me sinto constrangido, era só palhaçada”, diz Rafael. “Aos poucos fui perdendo o hábito de postar com muita freqüência e decidi parar. Meus amigos da época, que continuam blogando, hoje escrevem mais no Twitter, que mantém o espírito de diário.”

Thiago tinha uma página extremamente pessoal. Seus posts revelavam, com muita maturidade, os conflitos que vivia consigo mesmo. Ele encerrou o seu blog por dois motivos. No boom do fotolog, começou a postar mais imagens que textos. E também por algumas ameaças que sofreu para acabar com a página.

“Assinava com o meu nome, falava de minha vida e isso incomodou muita gente, que não me entendia. Não percebia a responsabilidade que tinha nas mãos”, afirma ele, que hoje mantém um blog de música e uma página no Thumblr.

Mas só poucos amigos dele sabem disso.

Nova geração perde a figura do 'eu' Portais de blogueiros e páginas de marcas ou empresas mostram a transformação que o blog teve nos últimos anos

Gustavo Miller

Quando começou a aparecer no Brasil, o blog estava muito voltado à figura do “eu”. O blogueiro falava de sua vida pessoal abertamente e era a figura principal da página - “evasão de privacidade” era um termo usado na época. Era mais do que um simples diário virtual: um espaço para escrever crônicas, poemas, resenhar livros e filmes, contar piadas ou simplesmente não falar nada com nada. Era assim com quase todas as pessoas que começaram a blogar entre 2000 a 2004 - e de certa forma continua sendo, pois o blog ainda mantém sua característica principal de dar voz para qualquer internauta.

Mas uma tendência que vem crescendo nos últimos anos são páginas temáticas e coletivas, cada vez mais a cara de sites! “Antes era o blog do fulano, agora é o blog do carro. A figura do blogueiro continua importante, mas a marca e posicionamento do blog vem se tornando outro elemento-chave”, diz Wagner “Mr.Manson” Martins.

“Vi outro dia um blog de um toca-MP3. O que ele vai postar? ‘Hoje apertaram os meus botões, ligaram o play e avançaram duas faixas. Aí meu dono entrou no ônibus e fez a coisa que mais odeio: me escondeu dentro da cueca para eu não ser roubado’”, brinca Ronald Rios, de 19 anos - seis deles de blog.

Isso ocorre devido à profissionalização recente que acontece com essa ferramenta. Apesar de ainda ser uma mídia “descolada”, ter blog hoje é uma forma de negócio muito nova. Uma empresa que cria o blog de um celular, por exemplo, o fez para deixar o produto mais próximo do leitor.

Uma das principais razões que explicam o sucesso do blog no País é que ele sempre foi uma ação entre amigos. Sicrano leu o blog de beltrano, gostou e linkou a página dele em seu espaço. Aos poucos iam se formando grupos e panelinhas.

Um caso emblemático aconteceu com Clarah Averbuck. Quando ainda blogava no Brazileira!Preta, a escritora passou por dificuldades financeiras. Ela retratou isso no blog e até publicou o número de sua conta bancária caso alguém resolvesse ajudá-la. E não é que pintaram alguns depósitos? Outra vez, agora desempregada, ela escreveu que estava prestes a ser despejada de sua casa. Um leitor leu a história e emprestou um apartamento vazio para Clarah viver por quatro meses até ela descolar um trabalho.

Essa troca de favores ainda existe. Não são poucos os blogueiros que conseguiram algum emprego graças a outro blogueiro, ou que resolveu se unir com outro dono de blog para montar uma empresa. Afinidade é algo normal na blogosfera. O que anda acontecendo hoje de diferente é que antes essas oportunidades eram uma conseqüência, aplicadas ao mundo real. Dificilmente alguém montava um blog pensando nisso. Agora não - e as parcerias ficam cada vez mais restritas ao universo virtual.

Um bom exemplo são os portais de blogs, como o Blogamos e HiTech Live. Eles contam com vários blogueiros participantes e montam uma home page com os melhores posts de cada um.
“É uma tendência que tem se acentuado por três motivos: as pessoas acham mais divertido fazer parte de um coletivo, a exposição de seu site fica maior e as oportunidades de se obter alguma receita blogando é teoricamente maiores”, analisa Ruy Goiaba, que já foi do Wunderblogs e agora está no A Postos.

Algo que está se tornando comum são blogs que tratem de assuntos em comuns criarem parcerias entre si. No Sedentário e Hiperativo só é colocado na página o banner de outro site se ele for popular. “Trocar link e banners é algo muito importante, pois faz o seu leitor entrar em outro site, e vice-versa”, diz Bruna Calheiros.

“Nosso espaço é limitado. É injusto colocar o Jacaré Banguela, que é muito popular e nos ajuda, ao lado de um blog menor com poucas visitas. Damos destaque para quem nos destaca.”
Outra questão que exemplifica a teoria de que os blogs estão mais restritos ao universo da internet é a popularização das páginas pessoas de entretenimento, em que o blogueiro mostra aquilo que bomba na internet: uma notícia bizarra, um vídeo engraçado, a montagem de uma foto... Se os blogs antes eram mais geradores de conteúdo, agora estão mais para filtro.
“Eu montei um espaço para publicar os papos e idéias que surgiam no boteco com os meus amigos. A molecada agora, sem ser pejorativo, usa a internet como o seu boteco. É nela que se descobrem coisas novas e se troca idéias”, analisa Manson.

Um blog de sucesso nesse molde é o Ueba, que desde 2002 só indica links interessantes. “Ponho qualquer coisa que acho bacana e tenho algumas parcerias com outros blogs. Umas são comerciais, outras estratégicas”, analisa Gilberto Soares Filho, de 35 anos.

Essa realidade já tem os seus críticos - a geração mais antiga, principalmente. Quem deu uma alfinetada recentemente foi Edney Souza, o Interney. No mês passado ele lançou a ação Blogagem Inédita, onde qualquer blogueiro teve um mês para produzir um post de conteúdo relevante, em que ele mesmo apurasse as informações. Foram 170 textos recebidos.
“Foi uma crítica aberta mesmo. Eu não vejo o pessoal com ambição para ser um blog de referência, lendo e pesquisando materiais de comunicação e novas formas de interagir pelo blog. Virou uma grande mesmice de copiar e colar”, provoca.

Blogs se acusam de plágio

: Gustavo Miller

A tendência dos blogs de entretenimento, em que se publica material interessante descoberto na web, vem provocando polêmica. Especialmente entre as principais páginas de humor no Brasil. A corrida para soltar uma piada em primeira mão ou uma montagem engraçada com exclusividade vem recebendo acusações de plágio por parte de alguns blogueiros. Plagiar para eles tem outro nome: “kibar”.

O verbo, obviamente, é uma referência ao Kibe Loco. Há cerca de 4 meses um blog foi criado apenas para denunciar tal prática. Nele, o universitário Leandro Chamarelli, de 22 anos, investiga possíveis posts publicados no Kibe, Jacaré Banguela, Brogui e outros sites de humor, checando a veracidade deles.

“A internet é um espaço livre. Muitos blogs, como o Kibe Loco, se apropriam de piadas de blogs menores ou de fora não creditam a sua autoria. É uma grande falta de ética”, afirma o autor. “Montei a página como protesto e meu recado já foi dado. Tenho por volta de 800 acessos diários”, completa.

Quem também bate no Kibe é Fred Fagundes, do Jacaré Banguela. “Ele recebe normalmente os mesmos e-mails que eu. As montagens de leitores quando vão para o meu site são creditadas. No Kibe, não. Ele pega a foto, assina com o link do blog e não diz nada, como se fosse o autor da maravilha”, afirma.

O publicitário Antônio Tabet, o Kibe Loco, afirma conhecer o blog de Chamarelli e explica que, por receber uma lista absurda de e-mails por dia, não tem como checar de onde veio cada piada. Ao comentar as acusações que recebe na blogosfera, Tabet se manifesta com uma dose de mau humor e ironia.

“Não sou como a Preta Gil”, ri. “Não me importo com essas críticas e acho até graça às vezes. Resolveram apertar essa ‘tecla da cópia’, que nunca provaram”.

“Apesar de serem sites de pouca audiência, isso gera um barulho entre o público deles. E, de quebra, me rende mais visitantes. Faz com que eu me sinta a ‘Rede Globo’ dos blogs. É sinal que o Kibe Loco virou mesmo referência”, ironiza.

Quase a metade dos internautas lê blogs
Ferramenta foi absorvida pelo mercado e pela mídia, mas grande parte dos blogs é produzida por internautas amadores

Rodrigo Martins

Se há dez anos o blog era uma ferramenta desconhecida para os brasileiros, hoje 45,5% dos internautas acessam esse tipo de site, aponta o Ibope/NetRatings. Mas uma coisa não mudou: em sua maioria, os blogs continuam sendo diários virtuais para amadores contarem experiências pessoais. Há, lógico, sites de outros tipos: jornalísticos, corporativos, etc. Mas são minoria.
'Os dez blogs profissionais mais populares, independentes e em portais, têm só 10% da audiência da blogosfera. O resto é pulverizado. Os diários virtuais, que são em maior número, são no conjunto os que recebem mais visitas', afirma o pesquisador do Ibope Inteligência, José Calazans.
E segundo ele, o internauta não é fiel. 'Em 65% dos casos, ele entra em blogs ao buscar no Google, por exemplo, uma atração turística. Aí lê o relato de quem esteve lá', aponta. 'A fidelidade é mais comum em blogs ligados a portais, com público mais velho. Os jovens não se importam com a fonte. Eles buscam no Google e lêem no site que for indicado.'

Em busca dessa fidelização, o blog se espalha pelos portais dos veículos de mídia. Dos jornais e canais de TV aos provedores, há quem chegue a ter mais de cem blogs, como o IG. 'Temos 170', conta o diretor de conteúdo do portal, Caíque Severo. 'Com o blog o leitor interage com o colunista, comenta...'

'E atrai todos os públicos', explica a diretora de conteúdo do UOL, Márion Strecker. 'Mas não está nem perto da ser a maior audiência. Temos alguns dos blogueiros mais populares da internet, mas eles não trazem nem 1% dos visitantes do UOL.'

Os jornais também aderiram aos blogs. No Globo Online, são 90. 'A idéia é ter um cardápio variado. De TV a esportes radicais', comenta o editor executivo de interatividade, Aloy Jupiara. 'Atendemos a nichos específicos que o jornal não cobre sempre.' Para o editor-chefe de Conteúdo Digital do Grupo Estado, Marco Chiaretti, os blogs trazem um aprofundamento das informações. 'E estreitam a relação do leitor com o jornal.'

Os blogs também começam a surgir nas emissoras de TV. A Globo tem 20 blogs, ligados a programas como Malhação e Video Show. No último Big Brother, cada confinado postava em seu blog. Na MTV, a meta é ter 40 blogs até o meio do ano. Hoje são 20. 'Serão sobre assuntos diversos. É um meio a que os jovens estão acostumados', diz Mauro Bedaque, diretor de internet.
Nas empresas, o movimento também cresce. Carrefour, Tecnisa, Philips, Natura, Close Up e até o George Foreman Grill já aderiram. 'Mas a maioria das companhias ainda tem medo de se expor nos blogs, abrir espaço para comentários...', revela Patrícia Gil, diretora da consultoria corporativa Máquina Web.

Quem está na onda jura que funciona. 'É uma forma de chegar aos jovens', explica Luana Inocentes, gerente de produtos do George Foreman Grill. 'Esse público pede inovação. E o blog tem sempre novidades', conta a gerente de marketing da Close Up, Camila Gravina.

O Carrefour montou um blog para todos os públicos. 'Os varejistas são parecidos, têm os mesmos produtos e preços. É preciso se diferenciar', opina a gerente de relacionamento com o cliente, Renata Freitas. 'O blog faz o cliente se lembrar da marca', completa o diretor de marketing da construtora Tecnisa, Romeo Busarello.

E como fazer para os internautas acessarem o blog da empresa? 'É preciso ter um conteúdo diferenciado. Não adianta falar de produtos da marca', explica o gerente de internet da Philips, Alessandro Martins. 'Assim, consegue-se fidelizar o internauta para que volte e, inclusive, acesse outras seções do site', finaliza o gerente de internet da Natura, Mario Orlandi Júnior.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Eixo Rio-SP foi crucial para o Orkut (Estadão, de 02/03/2009)


Rodrigo Martins - O Estado de São Paulo

Se as redes sociais são um fenômeno mundial, as comunidades que nelas se formam, essas sim, são bem locais. Danah Boyd usa a introdução para explicar o sucesso do Orkut no Brasil (e só no Brasil). O mesmo acontece com o Cyworld, na Coreia do Sul, ou o QQ, na China. E por mais que o Facebook seja líder em vários países, cada nação tem uma rede social que domina, concentrando os internautas.

Por que isso acontece? Para entender o processo, vamos voltar a 2004, ano em que o Orkut foi lançado. Até agora, o discurso da maioria dos pesquisadores era que o visual do site tinha agradado os brasileiros, que seriam mais sociais. “Não foi isso. Foi uma sucessão de fatos que se desenrolaram com um efeito de rede devastador”, diz ela, que veio ao País para fazer essa pesquisa. O Orkut é usado hoje por 70% dos internautas do Brasil.

Lá em 2004, conta Danah, o site foi lançado nos EUA e os programadores norte-americanos do Google e alguns especialistas começaram a usá-lo. Daí, alguns deles tinham contato com brasileiros, que começaram a usá-lo, fazendo o País subir no ranking de membros do serviço. E começou a competição. “Os brasileiros ficaram em segundo, atrás dos EUA. Surgiu uma campanha para desbancar os norte-americanos. Não deu outra. Os americanos fugiram, pois estava se falando muito português e eles não compreendiam.”

Só isso, entretanto, não justifica o sucesso do Orkut no País. Danah diz que as amizades entre moradores de Rio e São Paulo foram fundamentais.

“São duas cidades em que há muita mobilidade. Muitos nasceram no Rio, por exemplo, e estudaram em São Paulo e conhecem pessoas nas duas cidades. Pela impossibilidade de quem mora em uma cidade ir sempre para outra, o Orkut passou a ser usado para fazer esse intercâmbio. E isso foi espalhando a popularidade. A ponto de, hoje, todo mundo estar lá porque todos os amigos também estão.”

Cenários semelhantes também acontecem em outros países. Na China e na Coreia do Sul, por exemplo, sites com algarismos romanos não são bem aceitos. “Como no Brasil, em que pessoas falando português foram fundamentais, na Coreia, o fato de os pais terem um status que permite acompanhar os filhos no Cyworld foi importante para disseminar a rede. É um laço de comunidade muito complexo. Por isso que dificilmente as pessoas vão deletar suas contas no Orkut no Brasil.”

domingo, 1 de março de 2009

Feliz Aniversario, Rio!!! Aquele Abraco!!!


“Um bom jantar, depois dancar, Copacabana. Pra se amar, um so lugar, Copacabana”. A musica Sabado em Copacabana, de Dorival Caymmi, eh uma entre as milhares (talvez milhoes…) que tem o Rio como inspiracao!


Tudo moralizado, galera? Eu nao poderia comecar a minha insercao em mais um espaco na net da melhor forma; antes, iria estrear o blog no dia 8 de abril, mas decidi antecipar, e nada melhor do que inaugurar algo num dia de festa, pois hoje (dia 1 de marco), eh aniversario da cidade do Rio de Janeiro!!

Poderia utilizar um trechinho da musica dos Titas (…nao sou carioca, nao sou portugues…), para dizer que nao nasci no Rio… mas a Cidade Maravilhosa eh extremamente importante para mim, pois o Rio e alguns cariocas (veja secao Camarote Ponte Aerea no meu perfil do orkut e voces verao que muitas pessoas que admiro sao do RJ) me deixa mais feliz, assim como a cidade ser para mim, objeto de constante reflexao…

O Rio tambem merece um lugar destacado no meu coracao pela sua musica, pelo seu povo (meu cunhado eh do Leblon), pela sua gastronomia, pelo seu futebol, por ter sido a capital do Brasil ate 1960, enfim… sao tantas coisas, situacoes, que poderia falar sobre o Rio com voces infinitamente…. e com o maior prazer!

Porem, farei isso de maneira intercalada com Sao Paulo, assim como demais assuntos…

Encerro, com trecho de Aquele Abraco, musica de Gilberto:

“O Rio de Janeiro continua lindo; o Rio de Janeiro continua sendo; o Rio de Janeiro, fevereiro e marco; alo, alo, seu Chacrinha, aquele abraco; alo torcida do Flamengo, aquele abraco”.

*em tempo: a escolha da cancao de Caymmi para abrir o texto nao foi a toa. Ele tornou-se nome de rua, numa homenagem mais que merecida da cidade que o adotou. A rua Dorival Caymmi fica no Leblon.
** teclado com problemas... desculpe pela falta de acentos...