segunda-feira, 2 de março de 2009

Eixo Rio-SP foi crucial para o Orkut (Estadão, de 02/03/2009)


Rodrigo Martins - O Estado de São Paulo

Se as redes sociais são um fenômeno mundial, as comunidades que nelas se formam, essas sim, são bem locais. Danah Boyd usa a introdução para explicar o sucesso do Orkut no Brasil (e só no Brasil). O mesmo acontece com o Cyworld, na Coreia do Sul, ou o QQ, na China. E por mais que o Facebook seja líder em vários países, cada nação tem uma rede social que domina, concentrando os internautas.

Por que isso acontece? Para entender o processo, vamos voltar a 2004, ano em que o Orkut foi lançado. Até agora, o discurso da maioria dos pesquisadores era que o visual do site tinha agradado os brasileiros, que seriam mais sociais. “Não foi isso. Foi uma sucessão de fatos que se desenrolaram com um efeito de rede devastador”, diz ela, que veio ao País para fazer essa pesquisa. O Orkut é usado hoje por 70% dos internautas do Brasil.

Lá em 2004, conta Danah, o site foi lançado nos EUA e os programadores norte-americanos do Google e alguns especialistas começaram a usá-lo. Daí, alguns deles tinham contato com brasileiros, que começaram a usá-lo, fazendo o País subir no ranking de membros do serviço. E começou a competição. “Os brasileiros ficaram em segundo, atrás dos EUA. Surgiu uma campanha para desbancar os norte-americanos. Não deu outra. Os americanos fugiram, pois estava se falando muito português e eles não compreendiam.”

Só isso, entretanto, não justifica o sucesso do Orkut no País. Danah diz que as amizades entre moradores de Rio e São Paulo foram fundamentais.

“São duas cidades em que há muita mobilidade. Muitos nasceram no Rio, por exemplo, e estudaram em São Paulo e conhecem pessoas nas duas cidades. Pela impossibilidade de quem mora em uma cidade ir sempre para outra, o Orkut passou a ser usado para fazer esse intercâmbio. E isso foi espalhando a popularidade. A ponto de, hoje, todo mundo estar lá porque todos os amigos também estão.”

Cenários semelhantes também acontecem em outros países. Na China e na Coreia do Sul, por exemplo, sites com algarismos romanos não são bem aceitos. “Como no Brasil, em que pessoas falando português foram fundamentais, na Coreia, o fato de os pais terem um status que permite acompanhar os filhos no Cyworld foi importante para disseminar a rede. É um laço de comunidade muito complexo. Por isso que dificilmente as pessoas vão deletar suas contas no Orkut no Brasil.”

Um comentário:

  1. 02/03/2009 - Estadão
    DANAH BOYD 31 anos, pesquisadora em redes sociais

    ‘Conectados, buscamos ser especiais’

    Danah diz que internet criou novas regras de status social numa época em que relações físicas migram para a rede

    Rodrigo Martins

    Você usa Orkut, YouTube, blog, Twitter? Já pensou por que faz isso? A pergunta pode parecer um tanto banal, já que ter pelo menos um perfil em uma rede social é coisa bem comum hoje. Mas sabia que a motivação para a sua vida social na web pode vir muito além do manjado discurso de se conectar e se comunicar com os amigos?

    Cheia de piercings, com roupas em estilo hippie e em nada parecida com o estereótipo de pesquisadora acadêmica, a norte-americana Danah Boyd tornou-se uma das principais cabeças no estudo da explosão de “mídias sociais” no mundo inteiro, onde internautas não só contatam amigos, “como conhecem pessoas, compartilham informação e suprem a necessidade de contato em uma sociedade violenta e obcecada pelo trabalho”, justifica.

    Danah, que mantém o blog www.danah.org, debruça-se sobre os hábitos sociais dos internautas desde 1998, quando ficou intrigada com a interação em listas de discussão. Na época nem se cogitava a existência de Facebook, Orkut ou MySpace. Onze anos depois, já viajou o mundo todo dando palestras, terminou o mestrado em comportamento nas redes sociais, foi futuróloga de Intel, Yahoo e Google – agora dá expediente na Microsoft – e é figurinha requisitada em discussões sobre web 2.0.

    Com todo esse currículo nas costas, era de se esperar que a norte-americana tivesse um pensamento que fuja do óbvio. E tem. Sabe por que o Orkut pegou no Brasil? Até agora, o que se ouvia era que os brasileiros eram mais sociáveis que os outros internautas. “Bobagem”, disse Danah ao Link em sua visita mais recente ao Brasil, no ano passado. “Foi uma mistura de concorrência com os EUA e de amizades entre Rio e São Paulo”, explica a acadêmica, que fez uma pesquisa no País (leia mais ao lado).

    Segundo ela, o fenômeno social é mundial. “As pessoas gostam de compartilhar. Isso dá status social, uma forma de se conectar às outras pessoas. E não é a tecnologia que trouxe isso. Somos biologicamente programados para sermos sociais. Só que as possibilidades aumentaram. Se antes ter status social significava colocar uma roupa legal, hoje, é estar em blogs, redes sociais ou sites de vídeo.”

    Danah diz que um dos reflexos exacerbados por essa mudança é que o internauta quer ganhar muita atenção. “Todos querem ser especiais para serem notados na multidão.” Para quê? Para aumentar o círculo de amizades. Um dos principais atrativos das redes é ter o meu perfil a alguns cliques de distância de outras pessoas desconhecidas – e que podem interessar para amizades ou algo mais...

    “As redes como o Twitter possibilitam que mesmo quem não seja amigo leia o que eu posto e, assim, se interesse por mim, seja para bater papo, flertar ou mesmo sexo, que é uma das maiores motivações das pessoas na rede. Isso não era possível há alguns anos pelo Messenger, por exemplo, em que só se conversava com amigos. Nessa época, sexo pela web era só com os amigos.”

    Nesse ambiente, aponta, mais do que simplesmente se conectar aos amigos, a vida social de cada um de nós se transfere cada vez mais para a web em detrimento do contato físico. “As pessoas hoje vivem um desejo de consumo desenfreado. Isso causa uma pressão para que trabalhem cada vez mais. E o social, fisicamente falando, se perde por falta de tempo. O substituto são as redes.”

    Mesmo crianças e adolescentes sofrem desse sintoma. “A violência e a dependência dos pais para levar e trazer faz com que os garotos fiquem cada vez mais em casa. E assim constroem os seus círculos de amizade pela internet, mesmo que seja para falar com amigos da escola.”

    Essa virtualidade, ao contrário do que se possa pensar, não torna as relações superficiais, aponta Danah. Ao contrário disso, ela afirma que nunca se teve os amigos tão próximos e íntimos como hoje. “Os amigos estão sempre com você, a um clique.”

    E isso ainda deve ganhar proporções maiores. Para Danah, por conta da mobilidade. No celular, será possível saber os amigos ou os amigos dos amigos que estão próximos a você, num bar, por exemplo. Hoje, há várias experiências, mas nenhuma ainda “pegou”. “A internet no celular é ainda cara. Mas, no futuro, os amigos estarão no bolso, a qualquer hora.”

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