
Segunda-feira, 7 abril de 2008
Muitos autores de blogs do começo do século perderam parte de sua audiência após escreverem menos em seus sites
Gustavo Miller
Nemo Nox não foi o primeiro brasileiro a entrar no mundo dos blogs. Apenas um mês antes de sua estréia, a gaúcha Viviane Vaz de Menezes foi a primeira blogueira tupiniquim, com o Delights to Cheer. Mas, como o título denuncia, ela escrevia em inglês. Nox, assim, foi pioneiro ao colocar na blogosfera as suas primeiras palavras em português. Dez anos após a estréia de Diário da Megalópole, o Link foi atrás de alguns blogueiros das antigas e pediu para que eles contassem como era ter um blog quando ele engatinhava no Brasil - e o que mudou agora, quando o meio já virou “hominho” e até trabalha.
“Os blogs não mudaram muito, o que está diferente é o perfil dos blogueiros. Antes era diarinho? Era, mas o pessoal tinha conteúdo, não se levava a sério, dava prazer de ler. Hoje tem muito ‘zé graça’ que acha que a internet é uma mina de ouro e que vai ganhar dinheiro com blog”, cutuca Mariana Seversen, de 25 anos, a Boo do www.bluezita.com - no ar desde 2001.
“No começo havia um glamour em blogar. Depois que a Globo comprou o Blogger.com.br (em 2003) a coisa proliferou e o pessoal que antes comentava decidiu escrever. Surgiu muito site bom, mas mil vezes mais páginas ruins apareceram”, alfineta Gabriel Von Doscht, o Moskito, que assina o www.dequejeito.com.br, também de 2001.
É raro ver exemplos de autores “da velha geração”, como Alexandre Inagaki, que há sete anos mantém o seu ritmo de cerca de três posts por semana. Muitos escrevem esporadicamente para não perder o hábito, mesmo se o blog não é mais tão visitado como antes.
“Ele continua sendo o meu laboratório, meu caderno de rascunho, como aqueles que andam no bolso de quem escreve”, descreve a webdesigner Rita Apoena, de 31 anos, que anota poemas no ritaapoena.zip.net.
Já outros acabam se adaptando aos tempos para continuarem tendo o prazer por escrever aquilo o que lhe dá na telha. Para muitos, microblogs como o Twitter resgatam um pouco o ideal de diário pessoal descompromissado. O próprio Bluezita só tem agora pequenas pílulas do dia-a-dia de Boo.
“Não tenho mais a eloqüência de meus 18 anos. Hoje ele é mais para escrever besteira quando dá vontade”, brinca. “Agora ele está intimista, dá uma média de 20 a 50 acessos diários. No começo era uns 500... Acho até melhor, porque agora sei quem o lê mesmo.”
Isso é engraçado. Muito blog famoso se orgulha de ter 10 mil visitas diárias, mas não faz idéia de quem é esse pessoal. “Não é o número de cliques que torna um blog importante, é a sua influência. É fácil dizer que se tem 10 milhões de leitores, quando 60% deles caiu de pára-quedas do Google porque digitou nele ‘fotos na Playboy’, caiu na página e logo saiu”, provoca Wagner Martins, o Mr. Manson.
Então como medir a real audiência do blogueiro? Para Manson, a solução é ver o número de assinantes do feed do site, uma ferramenta de RSS que avisa o assinante sempre que o blog é atualizado, sem precisar visitá-lo. Já para Edney Souza, do Interney.net, uma boa medição é o tempo médio que o internauta passa com a página aberta, o que possivelmente indica se o público está realmente interessado no conteúdo exibido.
Já para os blogueiros da velha escola, a melhor opção também é o tempo - mas o do blog, pois aí realmente se sabe quem é leitor interessado mesmo, que sempre comenta o post ou manda e-mails ao blogueiro - diferente daquele que visitava e trocava links apenas para pegar carona no sucesso do blog quando ele estava no auge.
“Tenho uma média de 200 visitas diárias, o que está bom, já que não posto sempre. Quem está comigo são os leitores fiéis, que se manifestam com freqüência na minha caixa de comentários ou colocam links para mim”, diz Ruy Goiaba.
“Tenho leitores novos todo dia, mas mantenho a torcida que está comigo há sete anos e que não me deixa parar. Os que chegam lêem todos os meus arquivos e conversam comigo como se fossem velhos conhecidos”, elogia Sérgio Faria, do Catarro Verde.
Hoje eles não blogam mais
Gustavo Miller
Por ainda ter a pecha de diário de adolescentes em seu começo, muitos blogueiros jovens, que começaram a escrever a no começo deste século, hoje não mantém mais as suas páginas no ar. O motivo? Eles cresceram (os donos, não os blogs).
Foi assim com o gerente de marketing Roberto Taunil, de 32 anos, que ganhou fama com o nome de Bob Bactéria. Na página, Bob contava, com ótimo bom humor, as enrascadas em que ele e os amigos viviam se metendo, como festas, viagens e, invariavelmente, casos amorosos.
“Casei, sabe como é...”, ri. “Naquela época era diário pessoal hoje é fonte de informação. Ele está muito profissional e impessoal”, comenta ele, que manteve o site de 2002 a 2006.
Também nessa época, dois primos, no fervor de suas adolescências, ganharam fama entre os blogueiros por serem criativos e bons escribas: os Capanema. O jornalista Rafael, hoje com 22 anos, escrevia no Sutil Como um Paquiderme, além do genial Diário do Pão com Manteiga na Chapa (ele descrevia, todo dia, o pão comido). Thiago, agora com 21, no Não Vai se Perder por Aí.
“Faz três anos que não vejo os arquivos do Paquiderme. Me sinto constrangido, era só palhaçada”, diz Rafael. “Aos poucos fui perdendo o hábito de postar com muita freqüência e decidi parar. Meus amigos da época, que continuam blogando, hoje escrevem mais no Twitter, que mantém o espírito de diário.”
Thiago tinha uma página extremamente pessoal. Seus posts revelavam, com muita maturidade, os conflitos que vivia consigo mesmo. Ele encerrou o seu blog por dois motivos. No boom do fotolog, começou a postar mais imagens que textos. E também por algumas ameaças que sofreu para acabar com a página.
“Assinava com o meu nome, falava de minha vida e isso incomodou muita gente, que não me entendia. Não percebia a responsabilidade que tinha nas mãos”, afirma ele, que hoje mantém um blog de música e uma página no Thumblr.
Mas só poucos amigos dele sabem disso.
Nova geração perde a figura do 'eu' Portais de blogueiros e páginas de marcas ou empresas mostram a transformação que o blog teve nos últimos anos
Gustavo Miller
Quando começou a aparecer no Brasil, o blog estava muito voltado à figura do “eu”. O blogueiro falava de sua vida pessoal abertamente e era a figura principal da página - “evasão de privacidade” era um termo usado na época. Era mais do que um simples diário virtual: um espaço para escrever crônicas, poemas, resenhar livros e filmes, contar piadas ou simplesmente não falar nada com nada. Era assim com quase todas as pessoas que começaram a blogar entre 2000 a 2004 - e de certa forma continua sendo, pois o blog ainda mantém sua característica principal de dar voz para qualquer internauta.
Mas uma tendência que vem crescendo nos últimos anos são páginas temáticas e coletivas, cada vez mais a cara de sites! “Antes era o blog do fulano, agora é o blog do carro. A figura do blogueiro continua importante, mas a marca e posicionamento do blog vem se tornando outro elemento-chave”, diz Wagner “Mr.Manson” Martins.
“Vi outro dia um blog de um toca-MP3. O que ele vai postar? ‘Hoje apertaram os meus botões, ligaram o play e avançaram duas faixas. Aí meu dono entrou no ônibus e fez a coisa que mais odeio: me escondeu dentro da cueca para eu não ser roubado’”, brinca Ronald Rios, de 19 anos - seis deles de blog.
Isso ocorre devido à profissionalização recente que acontece com essa ferramenta. Apesar de ainda ser uma mídia “descolada”, ter blog hoje é uma forma de negócio muito nova. Uma empresa que cria o blog de um celular, por exemplo, o fez para deixar o produto mais próximo do leitor.
Uma das principais razões que explicam o sucesso do blog no País é que ele sempre foi uma ação entre amigos. Sicrano leu o blog de beltrano, gostou e linkou a página dele em seu espaço. Aos poucos iam se formando grupos e panelinhas.
Um caso emblemático aconteceu com Clarah Averbuck. Quando ainda blogava no Brazileira!Preta, a escritora passou por dificuldades financeiras. Ela retratou isso no blog e até publicou o número de sua conta bancária caso alguém resolvesse ajudá-la. E não é que pintaram alguns depósitos? Outra vez, agora desempregada, ela escreveu que estava prestes a ser despejada de sua casa. Um leitor leu a história e emprestou um apartamento vazio para Clarah viver por quatro meses até ela descolar um trabalho.
Essa troca de favores ainda existe. Não são poucos os blogueiros que conseguiram algum emprego graças a outro blogueiro, ou que resolveu se unir com outro dono de blog para montar uma empresa. Afinidade é algo normal na blogosfera. O que anda acontecendo hoje de diferente é que antes essas oportunidades eram uma conseqüência, aplicadas ao mundo real. Dificilmente alguém montava um blog pensando nisso. Agora não - e as parcerias ficam cada vez mais restritas ao universo virtual.
Um bom exemplo são os portais de blogs, como o Blogamos e HiTech Live. Eles contam com vários blogueiros participantes e montam uma home page com os melhores posts de cada um.
“É uma tendência que tem se acentuado por três motivos: as pessoas acham mais divertido fazer parte de um coletivo, a exposição de seu site fica maior e as oportunidades de se obter alguma receita blogando é teoricamente maiores”, analisa Ruy Goiaba, que já foi do Wunderblogs e agora está no A Postos.
Algo que está se tornando comum são blogs que tratem de assuntos em comuns criarem parcerias entre si. No Sedentário e Hiperativo só é colocado na página o banner de outro site se ele for popular. “Trocar link e banners é algo muito importante, pois faz o seu leitor entrar em outro site, e vice-versa”, diz Bruna Calheiros.
“Nosso espaço é limitado. É injusto colocar o Jacaré Banguela, que é muito popular e nos ajuda, ao lado de um blog menor com poucas visitas. Damos destaque para quem nos destaca.”
Outra questão que exemplifica a teoria de que os blogs estão mais restritos ao universo da internet é a popularização das páginas pessoas de entretenimento, em que o blogueiro mostra aquilo que bomba na internet: uma notícia bizarra, um vídeo engraçado, a montagem de uma foto... Se os blogs antes eram mais geradores de conteúdo, agora estão mais para filtro.
“Eu montei um espaço para publicar os papos e idéias que surgiam no boteco com os meus amigos. A molecada agora, sem ser pejorativo, usa a internet como o seu boteco. É nela que se descobrem coisas novas e se troca idéias”, analisa Manson.
Um blog de sucesso nesse molde é o Ueba, que desde 2002 só indica links interessantes. “Ponho qualquer coisa que acho bacana e tenho algumas parcerias com outros blogs. Umas são comerciais, outras estratégicas”, analisa Gilberto Soares Filho, de 35 anos.
Essa realidade já tem os seus críticos - a geração mais antiga, principalmente. Quem deu uma alfinetada recentemente foi Edney Souza, o Interney. No mês passado ele lançou a ação Blogagem Inédita, onde qualquer blogueiro teve um mês para produzir um post de conteúdo relevante, em que ele mesmo apurasse as informações. Foram 170 textos recebidos.
“Foi uma crítica aberta mesmo. Eu não vejo o pessoal com ambição para ser um blog de referência, lendo e pesquisando materiais de comunicação e novas formas de interagir pelo blog. Virou uma grande mesmice de copiar e colar”, provoca.
Blogs se acusam de plágio
: Gustavo Miller
A tendência dos blogs de entretenimento, em que se publica material interessante descoberto na web, vem provocando polêmica. Especialmente entre as principais páginas de humor no Brasil. A corrida para soltar uma piada em primeira mão ou uma montagem engraçada com exclusividade vem recebendo acusações de plágio por parte de alguns blogueiros. Plagiar para eles tem outro nome: “kibar”.
O verbo, obviamente, é uma referência ao Kibe Loco. Há cerca de 4 meses um blog foi criado apenas para denunciar tal prática. Nele, o universitário Leandro Chamarelli, de 22 anos, investiga possíveis posts publicados no Kibe, Jacaré Banguela, Brogui e outros sites de humor, checando a veracidade deles.
“A internet é um espaço livre. Muitos blogs, como o Kibe Loco, se apropriam de piadas de blogs menores ou de fora não creditam a sua autoria. É uma grande falta de ética”, afirma o autor. “Montei a página como protesto e meu recado já foi dado. Tenho por volta de 800 acessos diários”, completa.
Quem também bate no Kibe é Fred Fagundes, do Jacaré Banguela. “Ele recebe normalmente os mesmos e-mails que eu. As montagens de leitores quando vão para o meu site são creditadas. No Kibe, não. Ele pega a foto, assina com o link do blog e não diz nada, como se fosse o autor da maravilha”, afirma.
O publicitário Antônio Tabet, o Kibe Loco, afirma conhecer o blog de Chamarelli e explica que, por receber uma lista absurda de e-mails por dia, não tem como checar de onde veio cada piada. Ao comentar as acusações que recebe na blogosfera, Tabet se manifesta com uma dose de mau humor e ironia.
“Não sou como a Preta Gil”, ri. “Não me importo com essas críticas e acho até graça às vezes. Resolveram apertar essa ‘tecla da cópia’, que nunca provaram”.
“Apesar de serem sites de pouca audiência, isso gera um barulho entre o público deles. E, de quebra, me rende mais visitantes. Faz com que eu me sinta a ‘Rede Globo’ dos blogs. É sinal que o Kibe Loco virou mesmo referência”, ironiza.
Quase a metade dos internautas lê blogs
Ferramenta foi absorvida pelo mercado e pela mídia, mas grande parte dos blogs é produzida por internautas amadores
Rodrigo Martins
Se há dez anos o blog era uma ferramenta desconhecida para os brasileiros, hoje 45,5% dos internautas acessam esse tipo de site, aponta o Ibope/NetRatings. Mas uma coisa não mudou: em sua maioria, os blogs continuam sendo diários virtuais para amadores contarem experiências pessoais. Há, lógico, sites de outros tipos: jornalísticos, corporativos, etc. Mas são minoria.
'Os dez blogs profissionais mais populares, independentes e em portais, têm só 10% da audiência da blogosfera. O resto é pulverizado. Os diários virtuais, que são em maior número, são no conjunto os que recebem mais visitas', afirma o pesquisador do Ibope Inteligência, José Calazans.
E segundo ele, o internauta não é fiel. 'Em 65% dos casos, ele entra em blogs ao buscar no Google, por exemplo, uma atração turística. Aí lê o relato de quem esteve lá', aponta. 'A fidelidade é mais comum em blogs ligados a portais, com público mais velho. Os jovens não se importam com a fonte. Eles buscam no Google e lêem no site que for indicado.'
Em busca dessa fidelização, o blog se espalha pelos portais dos veículos de mídia. Dos jornais e canais de TV aos provedores, há quem chegue a ter mais de cem blogs, como o IG. 'Temos 170', conta o diretor de conteúdo do portal, Caíque Severo. 'Com o blog o leitor interage com o colunista, comenta...'
'E atrai todos os públicos', explica a diretora de conteúdo do UOL, Márion Strecker. 'Mas não está nem perto da ser a maior audiência. Temos alguns dos blogueiros mais populares da internet, mas eles não trazem nem 1% dos visitantes do UOL.'
Os jornais também aderiram aos blogs. No Globo Online, são 90. 'A idéia é ter um cardápio variado. De TV a esportes radicais', comenta o editor executivo de interatividade, Aloy Jupiara. 'Atendemos a nichos específicos que o jornal não cobre sempre.' Para o editor-chefe de Conteúdo Digital do Grupo Estado, Marco Chiaretti, os blogs trazem um aprofundamento das informações. 'E estreitam a relação do leitor com o jornal.'
Os blogs também começam a surgir nas emissoras de TV. A Globo tem 20 blogs, ligados a programas como Malhação e Video Show. No último Big Brother, cada confinado postava em seu blog. Na MTV, a meta é ter 40 blogs até o meio do ano. Hoje são 20. 'Serão sobre assuntos diversos. É um meio a que os jovens estão acostumados', diz Mauro Bedaque, diretor de internet.
Nas empresas, o movimento também cresce. Carrefour, Tecnisa, Philips, Natura, Close Up e até o George Foreman Grill já aderiram. 'Mas a maioria das companhias ainda tem medo de se expor nos blogs, abrir espaço para comentários...', revela Patrícia Gil, diretora da consultoria corporativa Máquina Web.
Quem está na onda jura que funciona. 'É uma forma de chegar aos jovens', explica Luana Inocentes, gerente de produtos do George Foreman Grill. 'Esse público pede inovação. E o blog tem sempre novidades', conta a gerente de marketing da Close Up, Camila Gravina.
O Carrefour montou um blog para todos os públicos. 'Os varejistas são parecidos, têm os mesmos produtos e preços. É preciso se diferenciar', opina a gerente de relacionamento com o cliente, Renata Freitas. 'O blog faz o cliente se lembrar da marca', completa o diretor de marketing da construtora Tecnisa, Romeo Busarello.
E como fazer para os internautas acessarem o blog da empresa? 'É preciso ter um conteúdo diferenciado. Não adianta falar de produtos da marca', explica o gerente de internet da Philips, Alessandro Martins. 'Assim, consegue-se fidelizar o internauta para que volte e, inclusive, acesse outras seções do site', finaliza o gerente de internet da Natura, Mario Orlandi Júnior.

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