terça-feira, 21 de julho de 2009

All that



Série de lâminas em papel de Henri Matisse (1943), da qual fazem parte um logotipo e a figura em azul e amarelo: possivelmente o mais conhecido trabalho de grandes pintores do século XX sobre o jazz
Mostra: A contribuição jazzística da França é tema de magnífica exposição exibida em Paris e que será inaugurada em Barcelona
Por Zuza Homem de Mello, para o Valor, de Londres e Paris
17/07/2009

Nenhuma consoante ou vogal é comum a duas palavras que dão nome às cidades de maior apelo cultural no planeta, London e Paris. Ainda que tão próximas, London Town e Cité de Paris são radicalmente diferentes. Abaixo da terra, circula-se no underground londrino ou no métro parisiense; por cima, dirige-se um automóvel pela esquerda ou, diversamente, pela direita; na ilha, como manda a tradição, paga-se em libras, no continente, em euros; entra-se livremente na National Gallery, enquanto no Louvre faz-se fila na bilheteria sob a pirâmide de vidro; a forma como se alçam para o alto as duas torres, "landmarks" das cidades, nada tem a ver uma com a outra.

Entre ambas, além de terras cultivadas, há os 50 e poucos quilômetros das águas revoltas do canal da Mancha, palco de tragédias e episódios históricos.


Em 1944, ele tragou, em mistério até hoje não detalhadamente elucidado, o pequeno avião que levava a bordo o idolatrado líder das "big bands" americanas, o trombonista Glenn Miller. Seis meses antes desse fatídico 16 de dezembro, as águas e a neblina do canal haviam sido ultrapassadas pelas barcaças das forças aliadas na glorificada invasão que, detonada a todo risco a despeito do clima adverso, mudou o curso da Segunda Grande Guerra.


Cinquenta anos depois, com a construção do Eurotúnel, o canal da Mancha deixou de ser o empecilho que já fora para os que diariamente viajam de Londres a Paris e vice-versa.Foto DestaqueBillie Holiday, em retrato de Carl Van Vechten (194O); "Jazz" (1986), quadro do atormentado pintor Jean-Michel Basquiat que cita títulos de temas de Charlie Parker como "Now's the Time" e "Marmaduke"; um dos pais do cubismo, Fernand Léger demonstrou seu encantamento pelo gênero no desenho em papel "Jazz" (1930)


À minha frente, num vagão do trem Eurostar que parte lotado a cada hora de Saint Pancras Station ou, em sentido contrário, da Gare Du Nord, George Durgin Jr, um americano solícito de 86 anos que reside em Ocala, na Flórida, ex-piloto das fortalezas voadoras B -17, retorna à França, desta vez para participar das festividades dos 65 anos da invasão da Normandia. Ainda sob a emoção de sua longínqua juventude na Air Force, dá detalhes sobre suas missões de bombardeio, quando levantava voo do aeródromo de Debeach, uma das bases das operações militares, situada a uma hora e meia de Londres, onde nas horas de folga ia orar ou se divertir dançando com as inglesas.


Ao longo da conversa, regada a champanhe e vinho francês elegantemente servidos no almoço durante a viagem de duas horas e meia, revela-me também que tocava violino em orquestras, executando, à primeira vista, partes de clarineta gravadas por Benny Goodman. As lembranças musicais de um dos poucos remanescentes do dia "D" se prendem a uma época efervescente da história do jazz, a era do suingue, cujos discos servem como o mais adequado fundo musical para fascinantes relatos da farta literatura disponível sobre o tema "Second World War", título de uma das seções da livraria Foyle's de Londres.


Foi a época em que o guitarrista cigano de origem belga Django Reinhardt era considerado o maior ídolo do jazz francês. Sua fama era de tal ordem, que, em pleno 1943, o "Kommandatur" convidou-o para uma inconcebível turnê de jazz pela Alemanha nazista, jamais realizada, pois Django fugiu, desaparecendo no interior da França. Posteriormente, em setembro de 1944, consagrava-se no Olympia num espetáculo fechado para os militares aliados que haviam devolvido a cidade luz a seu povo.


Até americanos que nada entendiam de jazz ficaram boquiabertos com o suingue e os improvisos daquele displicente personagem de bigodinho fino que, mesmo sem usar dois dedos da mão esquerda, paralisados num acidente aos 18 anos, tocava como um demônio. Desconhecido para eles, Django era, no entanto, a figura de maior projeção no Quinteto do Hot Club de France com o qual estabelecera uma sonoridade notavelmente singular no jazz sem - imaginem se isso seria possível - um único instrumento de sopro. No Jazz! O timbre e o suingue desse combo de instrumentos de corda - três guitarras, violino e contrabaixo - acabou por determinar um estilo poderoso, que se converteu no único formato reconhecido no jazz que, é fato, não tem raízes em solo americano. Representa, isso sim, uma das duas maiores contribuições dos franceses ao jazz, sendo conhecido como Manouche style. É o estilo que caracteriza o jazz de Paris podendo até hoje, com sorte, ser ouvido nas galerias da Place des Vosges.ReproduçõesFoto DestaqueO vínculo à religiosidade é caracterizado, acima, na tela de Archibald J. Motley Jr. (1929); "affiche" para divulgar Louis Armstrong como artista da gravadora Decca, por volta de 1940; Josephine Baker, em litografia do húngaro Michel Gyarmathy (1927); capa da revista "Life"(1926) com figuras alusivas à era do jazz desenhadas por Fred Cooper


Não é pois de estranhar que o jazz parisiense tenha sido objeto de uma programação especial realizada no mais novo espaço dedicado à música e artes plásticas na cidade de Londres, o King's Place. Localizado às margens de um canal, a 300 metros de uma das mais movimentadas confluências do tube londrino, King's Cross, combina um moderno edifício de escritórios de aluguel com um gostoso bar e um simpático restaurante cercados de conforto e, o principal, um espaço cultural composto de uma galeria de arte e três salas de concerto, cuja programação finamente cuidada é subvencionada, em parte, pela renda das empresas locatárias.


A programação cultural do King's Place tem personalidade própria, bastando, para se ter ideia, recorrer ao título da serie "Beethoven Unwrapped" (Beethoven desembrulhado), que inclui atividades paralelas - concertos, palestras, discussões - em torno da obra do compositor. Outra marca da originalidade da programação é a duração de alguns concertos em convenientes horários, 45 minutos, tempo necessário e suficiente para a completa execução de uma obra de câmara.


Um recente destaque na programação musical do King's Place foi a mencionada série "Paris Jazz", que trouxe evidentemente um dos astros do "Manouche", o gorducho Biréli Lagrène, bem como o eloquente pianista Martial Solal, colega de americanos do bebop que viviam em Paris nos anos 50. Uma palestra sobre o, na época escandaloso, romance entre Juliette Greco e Miles Davis e suas implicações no existencialismo compôs com os demais concertos um ciclo que ratifica a segunda grande contribuição dos franceses ao jazz: o pioneirismo e a competência dos estudiosos sobre o tema. Afinal, esse vínculo vem de longe: a cidade onde nasceu o jazz chamava-se até 1803 La Nouvelle-Orléans.


Não foi sem uma certa sensação de saudade de um passado não vivido, o do jazz na Europa durante a guerra, que, ao me despedir do ex-piloto George, sugeri que visitasse o museu onde aquelas duas atuações dos franceses no jazz certamente seriam mais que bem representadas.


"Le Siècle du Jazz Art, Cinéma, Musique et Photographie de Picasso à Basquiat" - O século do jazz arte, cinema, música e fotografia de Picasso a Basquiat - é o título de uma brilhante mostra que esteve na Itália, de novembro a fevereiro, em Paris, no Musée du Quai Branly, de março a junho, e que será inaugurada no dia 21, no Centre de Cultura Contemporània de Barcelona.


O Branly é relativamente recente, de aspecto contemporâneo e dedicado a regiões que não façam parte da Europa, isto é, um museu sobre a Ásia, a América, a África e a Oceania. Seu interior, um tanto sinistro, abriga um acervo sensacional, além de exposições temporárias.


A mostra "Le Siècle du Jazz" expõe a relação das formas, gráfica ou sonora, próprias do gênero - expressas em capas de partituras, em livros, documentos, revistas especializadas, em capas de discos vinil, em filmes, shorts, clipes, fotografias, objetos e, naturalmente, na música propriamente dita, que é ouvida aqui e acolá - com a pintura e a escultura desse século por meio das obras de um elenco cintilante que inclui Picasso, Le Corbusier, Otto Dix, Man Ray, Leger, Mondrian, Matisse, Dubuffet, Pollock, Buffet, Tapies e Basquiat. Ademais, há dezenas de outros nomes das artes plásticas que transmitiram em sua obra a sedução que tiveram pelo jazz de seu século.


No terreno da densidade com que os franceses se entregaram aos estudos de jazz são expostos livros pioneiros e a primeira discografia de jazz de que se tem notícia, publicada em 1936 pelo privilegiado autor francês Charles Delaunay, um dos mais ativos dirigentes do Hot Club de France, que ele ajudou fundar. Associado a outro estudioso, Hugues Panassié, Delaunay editou a revista "Le Jazz Hot" em 1935 (apenas um ano após o primeiro número da americana "Down Beat"), promoveu concertos e gravações do legendário quinteto do clube, o tal em que brilhavam Django e o outro solista de que tanto se orgulham os franceses, o longevo violinista Stéphan Grappelli - tocou magnificamente até os 89 anos -, disputado pelos italianos pela acentuação no "ppe", em virtude de sua ascendência e com total razão pelos franceses, na sílaba final "lli".


Pannasié, futuro desafeto de Delaunay, contrastava seu entusiasmo e dedicação com uma visão obtusa sobre a evolução do jazz. Celebrado pelas promoções de concertos e por seu livro "Le Jazz Hot" (Paris, 1934), é ridicularizado pela ingenuidade que mostrou ao escrever: "Quando Charlie Parker desenvolveu o que era chamado de bop, deixou de ser um verdadeiro músico de jazz".


Se Pannasié, que foi exaltado durante anos até por Armstrong, de quem se fez amigo, teve essa visão desfocada, outros estudiosos franceses de jazz, nomeados na exposição do "Siècle du Jazz", produziram obras de referência, consistentes e penetrantes, com análises que permanecem respeitadas: Robert Goffin, de origem belga, que publicou em 1922 o primeiro de seus vários livros "Jazz Band", e André Coueroy, que escreveu com André Schaeffner, "Le Jazz", em 1926, ambas edições francesas. Posteriormente, a França teve outros excelentes autores sobre jazz, todos mencionados na "Siècle du Jazz", entre eles Andre Hodeir, autor do lúcido "Hommes et problèmes du Jazz" (1954), e Andre Francis, do elucidativo "Jazz", editado no Brasil pela Martins Fontes em 1987 com um capítulo extra sobre o jazz no Brasil, de minha autoria.


Outras atrações fascinantes na exposição são um exemplar do "Blue Book", a brochura editada entre 1915 e 1917 sobre La Nouvelle-Orleans, a capa da partitura original de St. Louis Blues de W. C. Handy (1914), exemplares da revista "Jazz", de capa futurista editada a partir do fim da década de 1920, e de outras publicações no período em que o mundo foi tomado de assalto pelas "jazz bands", a época que Scott Fitzgerald denominou de "The Jazz Era".


Reafirma-se em "Le siècle du Jazz" a arte gráfica que se criou num espaço novo, o das capas dos "long playings" dos anos 50 e 60, que além de instituir um conceito original de fundo comercial e cultural para a embalagem de um disco, tornou-se viável em virtude da vitalidade das gravadoras de jazz. O grafismo das capas expõe a diversidade de estilos abertos à experimentação, sem tradição e sem restrições, que se abriu a designers e fotógrafos no exíguo espaço de um quadrado de 30 centímetros de lado. Reflete o espírito de uma época e de uma música que ainda iria compartilhar com a música clássica as salas de concerto. Entre os grandes nomes contemplados na mostra, estão designers como David Stone Martin (vinculado a quase tudo produzido por Norman Granz nas etiquetas, Norgran, Clef e Verve) e Reid Miles (que definiu o estilo Blue Note em mais de 500 capas), fotógrafos como Bill Claxton, Herman Leonard, Francis Wolff e Lee Friedlander.


Essa arte gráfica esteve ao alcance de quem adquirisse um LP quando ainda existiam lojas de discos ou a quem encomendasse pelo correio um volume das coleções disponíveis nos catálogos dos clubes especializados como a Jazztone Society, cujas capas remetiam diretamente às linhas geométricas e vivamente coloridas das telas de Mondrian, o autor da célebre "Broadway Boogie Woogie".
Ressalta ao longo da exposição "Le Siècle du Jazz" a inquestionável e dupla contribuição da França para o jazz que, ao que se saiba, não recebeu ainda a merecida atenção nos eventos promovidos no ano da França no Brasil. Restará a quem se dispuser, ver a mostra em Barcelona. Até 18 de outubro. Um honroso "vaut le voyage" no guia Michelin.

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