Graças a uma das pessoas que mais admiro no mundo da gastronomia, a ex-modelo e chef gaúcha Helena Rizzo, do restaurante paulistano Maní, pude conhecer o texto brilhante do célebre artista plástico francês Marcel Duchamp. A Helena leu para a platéia, durante o Mesa Tendências 2008, O Ato Criador, de uma maneira leve e simples, onde o tempo todo falava baixo e sorria.
A chef diz que, atualmente, interessa passear livremente por idéias e filosofias. “Não acredito em verdades prontas. O importante é estar na vida acompanhando as modificações do mundo, da natureza”, filosofou.
O texto abaixo enfatiza “a necessidade de o artista ser impreciso em relação aos caminhos escolhidos, em prol da liberdade e fluência da criação”. Segundo Helena Rizzo, tal pensamento foi determinante ao conceber seu estilo de cozinha. “Gosto de partir de uma técnica, um princípio, sem saber onde vai terminar”.
Ótima leitura! Aproveito para lembrar que este texto também está presente no meu blog de gastronomia, www.futibar.blogspot.com
O ato criador (Marcel Duchamp)
Consideremos dois importantes fatores, os dois pólos da criação artística: de um lado o artista, do outro o público que mais tarde se transforma na posteridade.
Aparentemente o artista funciona como um ser mediúnico que, de um labirinto situado além do tempo e do espaço, procura caminhar até uma clareira.
Ao darmos ao artista os atributos de um médium, temos de negar-lhe um estado de consciência no plano estético sobre o que esta fazendo, ou por que esta fazendo. Todas as decisões relativas à execução artística do seu trabalho permanecem no domínio da pura intuição e não podem ser objetivadas numa auto-análise, falada, escrita, ou mesmo pensada.
T. S. Elliot escreve em seu ensaio sobre Traditions and Individual Talents: “Quanto mais perfeito o artista, mais completamente separados estão nele o homem que sofre e a mente que cria; e mais perfeitamente a mente assimilará e expressará as paixões que são seu material.” Milhões de artistas criam; somente alguns poucos milhares são discutidos ou aceitos pelo público e muito menos ainda são os consagrados pela posteridade.
Em última análise, o artista pode proclamar de todos os telhados que é um gênio; terá de esperar pelo veredicto do público para que a sua declaração assuma um valor social e para que, finalmente, a posteridade o inclua entre as figuras primordiais da História da Arte.
Sei que esta afirmação não contará com a aprovação de muitos artistas que recusam este papel mediúnico e que insistem na validade de sua conscientização em relação a arte criadora – contudo, a História da Arte tem persistentemente decidido sobre as virtudes de uma obra de arte, através de considerações completamente divorciadas das explicações racionalizadas do artista.
Se o artista como ser humano, repleto das melhores intenções para consigo mesmo e para com o mundo inteiro, não desempenha papel algum no julgamento que conduz o publico a reagir criticamente à obra de arte? Em outras palavras, como se processa esta reação?
Este fenômeno é comparável a uma transferência do artista para com o público, sob a forma de uma osmose estética, processada através da matéria inerte, tais como a tinta, o piano, o mármore.
Antes de prosseguir, gostaria de esclarecer o que entendo pela palavra “arte” – sem, certamente, tentar uma definição.
O que quero dizer é que a arte pode ser ruim, boa ou indiferente, mas, seja lá qual for o adjetivo empregado, devemos chamá-la de arte, e arte ruim, ainda assim, é arte, da mesma forma que emoção ruim, ainda é emoção.
Por conseguinte, quando eu me referi ao “coeficiente artístico”, deverá ficar entendido que não me refiro somente a grande arte, mas estou tentando descrever o mecanismo subjetivo que produz a arte em estado bruto – à l’état brut – ruim, boa ou indiferente.
No ato criador, o artista passa da intenção à realização, através de uma cadeia de reações totalmente subjetivas. Sua luta pela realização é uma serie de esforços, sofrimentos, satisfações, recusas, decisões que também não podem e não devem ser totalmente conscientes, pelo menos no plano estético.
O resultado desse conflito é uma diferença entre a intenção e a sua realização, uma diferença de que o artista não tem consciência.
Por conseguinte na cadeia de reações que acompanham o ato criador falta um elo. Esta falha que representa a inabilidade do artista em expressar integralmente a sua intenção; esta diferença entre o que quis realizar e o que na verdade realizou é o “coeficiente artístico” pessoal contido na sua obra de arte.
Em outras palavras, o “coeficiente artístico” pessoal é como uma relação aritmética entre o que permanece inexpresso embora intencionado, e o que é expresso não intencionalmente.
A fim de evitar um mal entendido, devemos lembrar que este “coeficiente artístico” é uma expressão pessoal da arte à l’état brut, ainda num estado bruto que precisa ser “refinado” pelo público como o açúcar puro extraído do melado; o índice deste coeficiente não tem influencia alguma sobre tal veredicto. O ato criador toma outro aspecto quando o espectador experimenta o fenômeno da transmutação; pela transformação da matéria inerte numa obra de arte, um transubstanciado real processou-se, e o papel do público é o de determinar qual o peso da obra de arte na balança estética.
Resumindo, o ato criador não é executado pelo artista sozinho; o público estabelece o contato entre a obra de arte e o mundo exterior, decifrando e interpretando suas qualidades intrínsecas e, desta forma, acrescenta sua contribuição ao ato criador. Isto torna-se ainda mais obvio quando a posteridade dá o seu veredicto final e, as vezes, reabilita artistas esquecidos.
Bibliografia: DUCHAMP, Marcel. O Ato Criador In: BATTCOCK, Gregory. A Nova Arte. São Paulo. Perspectiva: 2004


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